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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

A COMUNIDADE (Kollektivet, 2016)


A TAL COMUNIDADE DO TÍTULO É APENAS PANO DE FUNDO PARA UM DRAMA FAMILIAR

país de produção: Dinamarca, Suécia, Holanda // direção: Thomas Vinterberg // elenco: Ulrich Thomsen, Trine Dyrholm, Helene Reingaard Neumann

sinopse: O casal Erik e Anna herda uma casa imensa e resolve abri-la aos amigos e conhecidos. Só que as coisas começam a azedar quando Erick se apaixona por uma aluna e a leva para viver na comunidade, com o consentimento inesperado de Anna.

Metascore: 60 (metacritic.com)

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Talvez A Comunidade seja o pior filme do ótimo diretor dinamarquês Thomas Vinterberg. Digo talvez pois não conheço toda a sua filmografia. É um filme frouxo, até idiota. Não combina com suas obras maiores, Festa de Família (1998), Submarino (2010) e A Caça (2012).

De início temos a improvável decisão do acadêmico sisudo Erick, diante do tédio de sua esposa, de abrir para amigos, conhecidos, agregados e amigos de amigos, um casarão herdado. Tudo bem, o filme se passa no início dos anos 70 onde havia os sonhos da coletividade, de paz, amor, liberdade. Mas algo fica mal amarrado nisso aí. As justificativas são frágeis e o desenrolar para a formação da comunidade carece de substância. Diálogos terríveis, cenas tolas e personagens sem graça formam um breve resumo do primeiro ato do filme.

Até que entra em cena Emma, a bonita e insinuante aluna de Erick. Forma-se um triângulo amoroso. O filme ganha em interesse. A comunidade e seus tipos mal desenvolvidos, com os problemas que a vivência sobre o mesmo teto geram, ficam eclipsados pelo real conflito do filme: o caso extraconjugal de Erick e suas consequências para sua esposa e filha adolescente. Esse drama familiar é até bem vindo, já que a tal comunidade, desperdiçada em suas tolices, vira definitivamente um pano de fundo. Mas é muito pouco e, para piorar, o desfecho é mal elaborado, um anticlímax.

Me causa espanto o desperdício de um enredo tão potente. Vinterberg baseou o roteiro em experiências próprias, vividas em sua adolescência. Além disso, ele está em seu habitat. Filmado na Dinamarca, A Comunidade tem em alguns momentos a mesma pegada de Festa de Família, mas sem a mesma intensidade nos conflitos. Sobra de bom as atuações e algumas cenas interessantes e fortes, não mais.

Visto no Estação Net Rio, em setembro de 2016.

domingo, 20 de março de 2016

MELANCOLIA (Melancholia, 2011)

IRREGULAR E INQUIETANTE OBRA DA FASE DEPRESSIVA DE LARS VON TRIER.

país produtor: Dinamarca, Suécia, França e Alemanha // direção: Lars Von Trier // elenco: Kirsten Dunst, Kiefer Sutherland, Charlotte Gainsbourg

sinopse: Dividido em dois atos bastante distintos, Melancolia tem como personagens principais duas irmãs, também bastante distintas. No primeiro ato, uma delas (Justine), em plena festa de seu casamento, está lutando contra a depressão, enquanto a outra (Claire) tenta manter as aparências. Já no segundo, diante do iminente fim do mundo (um planeta chamado Melancolia irá se chocar contra a Terra), Justine parece conformada, sóbria e centrada; já Claire e seu marido não sabem como lidar com a situação.

Metascore: 80 (from metacritic.com)

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Todo fã do grande cineasta Lars Von Trier deve se lembrar do quiprocó que ele arrumou em Cannes ao fazer piada e provocação com um tema caro, o nazismo. Resultado: de queridinho na Riviera, Trier passou a persona non grata. Esse episódio me fez pensar muito na própria condição do cineasta e sua conhecida depressão.


Penso em Trier com compaixão, pois sei que as pessoas não tem paciência para com os enfermos da alma. O depressivo é uma pessoa só, incompreendida. E Trier foi, de fato, incompreendido em suas jocosas (e agressivas) observações. O resultado de tudo isso é mais uma vitória dessa terrível onda do politicamente correto e da geração mimimi. Trier, coitado, devia ter nascido nos anos 70 do século passado. Sua personalidade controversa seria mais bem aceita.

Quando vi Melancolia pela primeira vez nem mesmo sabia, mas esse filme faz parte de uma tal "trilogia da depressão" (deixo aqui um link que a explica muito bem: http://petcomufam.com.br/2014/02/lars-von-trier-e-a-trilogia-da-depressao.html). Pois bem, entrei no cinema ansioso em assistir o que meu falecido pai considerava um dos maiores filmes que ele havia visto. Por isso e pela assinatura desse diretor responsável por grandes obras como Ondas do Destino (1996) e Dogville (2003), esperava muito mais do que me foi entregue, infelizmente.

Pra começar, a festa de casamento que toma todo o primeiro ato me soou muito parecida com a brilhante encenação de Festa de Família (1997), dirigido por seu colega dinamarquês Thomas Vinterberg. Só que, diferente desse filme, Lars Von Trier contou aqui com um roteiro fraco, que insiste na bizarrice e em situações forçadas. O resultado é que isso me afastou do drama da depressão de Justine.


Já o segundo ato de Melancolia, com mais poesia (principalmente visual), é o que salva esse filme do fracasso completo. Não que seja extraordinária, mas há mais humanidade nas situações e nos personagens. Até mesmo as atuações de Kirsten Dunst (agraciada com o Cannes) e de Charlotte Gainsbourg são melhores aqui. E vou te dizer, que esplêndidas são as últimas cenas... Por isso meu conselho é aguentar até o fim. O filme é em muitos momentos chato, mas o final é avassaladoramente belo e angustiante.


Recentemente resolvi rever Melancolia na esperança de ter uma nova percepção sobre o filme. Isso já aconteceu comigo, de entender e gostar de uma obra apenas em uma segunda oportunidade. Mas não foi dessa vez. O drama de Justine continuava sendo sabotado por uma série de situações desnecessárias. Taí um filme que teria o prazer de remontar. Metade das bobagens da festa de casamento iriam para a lixeira.

O que posso dizer para finalizar é que, sem dúvida, Melancolia é um filme instigante e que, na sua ambição nos faz refletir. E isso não pode ser desprezado, assim como a originalidade que é esse apocalipse concebido por Trier. Isso somado ao seu tom pessimista faz de Melancolia um espetáculo memorável para mim, mesmo que dele não goste muito.

Visto em 2011 no Cinépolis Lagoon, no Rio de Janeiro. Revisto em 2015, em arquivo digital.

domingo, 17 de janeiro de 2016

MIL VEZES BOA NOITE (Tusen Ganger God Natt, 2013)


A ANGÚSTIA EM FOTOGRAFAR A DESGRAÇA HUMANA É PANO DE FUNDO PARA UM TOCANTE DRAMA FAMILIAR.

país produtor: Noruega, Irlanda, Suécia // direção: Erick Poppe // elenco: Juliette Binoche, Nikolaj Coster-Waldau, Lauryn Canny

sinopse: Rebecca (Juliette Binoche) é uma das melhores fotógrafas de guerra em atividade e precisa enfrentar uma crise familiar quando seu marido (Nikolaj Coster-Waldau) lhe dá um ultimato. Ele e a filha do casal (Lauryn Canny) não suportam mais sua rotina arriscada e exigem mudanças, mas ela, apesar de amar a família, tem verdadeira adoração pela profissão.

Metascore: 57 (from metacritic.com)

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Uma obra para ficar na memória e no coração, pelas questões que evoca, pela grande carga emotiva das interpretações e pela direção sensível desse grande talento Erick Poppe.

A saga da fotógrafa de guerra Rebecca, contada a partir de sua volta para casa em sua tentativa de reconquistar a família, é comovente e humana. Mas, indo além a esse drama familiar, o filme levanta uma discussão pertinente sobre o papel do fotojornalismo em um mundo atual saturado de imagens que dia após dia banalizam a dor, o sofrimento, a morte.

Pois Rebecca (Binoche, maravilhosa), apesar de não ter dúvidas sobre o quão importante é sua profissão para denunciar os crimes contra a humanidade, com algumas de suas ações (em especial a forte sequência que abre o filme) nos leva à discussão se ao espetacularizar uma ação criminosa, o seu idealismo não está sendo usado a favor das causas que pensa combater.

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Além dessas questões, o filme é especialmente doloroso para o espectador, pois tem como pano de fundo a dor de milhares de esquecidos, em países a margem do mundo global. Nações africanas e asiáticas onde o preço da vida humana é muito, muito baixo. Sem ser panfletário, o filme lança uma sempre necessária luz sobre o drama desses povos.

Mil Vezes Boa Noite é magnificamente filmado. O diretor foi durante muito tempo fotojornalista e revela um grande domínio cênico e estético. Há cenas lindíssimas, não só pela beleza plástica, mas também pela naturalidade nas interpretações. Destaco aqui a cena em que Rebecca e seu marido brincam a beira do mar, numa espécie de reconciliação. E aqui vale um adendo: grandes e sensíveis atuações somente são possíveis quando o diretor é igualmente sensível.

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Outro ponto que merece destaque é que o filme é avesso a artificialismos irritantes. Assim, a filha mais nova de Rebecca age e pensa como uma criança, assim como temos uma filha adolescente muito crível em uma ótima interpretação da jovem atriz Lauryn Canny.


Até sua metade irrepreensível, Mil Vezes Boa Noite tem um problema de roteiro na preparação para o terceiro ato, quando a crise se instaura na família. Mas esse problema não prejudica a excelente resolução do filme, em um final aberto, digno da complexidade dos dramas narrados.

Um dos grandes filmes a passar pelos cinemas brasileiros em 2015, infelizmente de forma muito tímida.

Visto em 2015, em arquivo digital.