Mostrando postagens com marcador Grandes Filmes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Grandes Filmes. Mostrar todas as postagens

sábado, 21 de janeiro de 2017

JANELA INDISCRETA (Rear Window, 1954)


UM FILME EXCEPCIONAL, MAS QUE INFELIZMENTE PECA NO ÚLTIMO MINUTO.

país produtor: Estados Unidos da América
direção: Alfred Hitchcock
roteiro: John Michael Hayes
elenco: James Stewart, Grace Kelly

sinopse: um fotógrafo com a perna engessada e entediado passa a observar pela janela a vida de seus vizinhos. Até que um dia ele presencia o que pode ser um assassinato, iniciando com isso uma investigação com a ajuda de sua namorada.

-------------------------------

Hitchcock adorava propor ao público exercícios desafiadores, usando para isso do mais puro cinema, ou seja, de suas possibilidades narrativas no uso do som, da montagem e da fotografia. Era um grande esteta, um revolucionário, um homem a frente do seu tempo, sem dúvida.

Foi também um incompreendido em Hollywood. OK, seus filmes faziam sucesso e o diretor era uma figura popular, mas o meio acadêmico não levava a sério seus filmes de suspense. Tanto isso é verdade que, até o lançamento de Janela Indiscreta, Hitchcock havia sido indicado ao Oscar em três ocasiões. Em nenhuma delas por conta de um filme desse gênero, que ele dominava como ninguém.

Temos aqui um exemplo desse pleno domínio de Hitchcock no ofício em contar uma história de mistério e suspense. Janela Indiscreta é um marco no cinema. Nunca antes um filme havia se utilizado de um único ponto de vista e se passado em tão reduzido espaço (o apartamento do personagem de Stewart) para contar, talvez, uma história de assassinato. Digo "talvez" pois tudo o que temos é a visão de um homem e de suas suposições sobre o que acontece à frente de sua janela, em Greenwish Village, Nova York.

Através de uma excelente montagem, Hitchcock dialoga com o espectador e o provoca: será tudo isso a alucinação de um homem, ou realmente aconteceu um crime? Além disso, nos brinda com uma maravilhosa ambientação sonora e visual: nas janelas abertas dos vizinhos a vida transcorre em meio aos sons de um piano, às gargalhadas, ao burburinho da cidade. Sons esses que muitas vezes substituem a trilha sonora, algo muito a frente do seu tempo, há 60 anos atrás, quando uma trilha sonora presente e pouco sutil era a tônica do cinema de Hollywood.

Visto pela primeira vez na minha adolescência, foi um prazer rever esse clássico depois de tanto tempo, pois me foi revelado o quanto ele ainda hoje pode surpreender esteticamente ao público contemporâneo, o que é incrível. Contudo, não pude deixar de me decepcionar, em seu desfecho, com a surpresa desnecessária diante de uma suposição que, confirmada, foi difícil de engolir (prefiro não citá-la para evitar spoiler). Ainda assim, a ousadia do cineasta em entregar ao grande público um exercício narrativo como esse tem que ser sempre louvado. O erro na conclusão é um problema menor diante das qualidades desse que é, com toda justiça, um filme referência para qualquer grande amante da sétima arte.

Visto em VHS nos anos 80 e revisto em 2014 no Netflix.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O PODEROSO CHEFÃO (The Godfather, 1972)



UMA OBRA-PRIMA QUE QUASE NÃO EXISTIU.

país produtor: Estados Unidos da América
direção: Francis Ford Coppola
roteiro: Mario Puzo e Francis Ford Coppola
elenco: Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall, Diane Keaton, Talia Shire

sinopse: primeiro filme da trilogia, conta a ascensão do filho caçula Michael Corleone ao posto de "padrinho" de uma família mafiosa de Nova York.

Metascore (metacritic.com): 100

----------------------

Já tanto se falou e tanto se elogiou O Poderoso Chefão que qualquer análise crítica desse obra-prima se torna redundante e o mais do mesmo. Meu interesse então não é falar do filme em si, mas sim do fato de que esse clássico poderia nunca ter existido como o conhecemos, tantos foram os problemas e intrigas que permearam a sua produção.

A história da família Corleone no cinema começou quando a Paramount, necessitando desesperadamente de uma grande bilheteria, comprou os direitos autorais do livro homônimo de Mario Puzo, um tremendo sucesso de vendas desde seu lançamento em 1969. A primeira opção para dirigir o filme não era Francis Ford Coppola mas, diante da recusa de nomes como Sergio Leone e Peter Bognadovich (por receio de fazerem uma obra que glorificasse a máfia), Coppola foi chamado.

Porém ele somente aceitou dirigi-lo quando viu uma oportunidade de fazer da história de Don Corleone e sua família uma metáfora do capitalismo (será que conseguiu?). Outro motivo, esse sim forte, era que sua produtora estava afundada em dívidas após produzir a ficção científica THX-1138, de 1971, do seu amigo George Lucas, um grande fracasso de bilheteria.

E foi assim que o jovem Coppola, sem grandes poderes dentro da Paramount, teve que negociar cada ideia sua, quase sempre encaradas com desconfiança pelos executivos. A equipe do filme tinha nomes impostos pela produtora, o que tornava o set de filmagem tenso. Isso somente foi resolvido quando ele, já na iminência de ser demitido, expulsou do set todos que não confiava, inclusive o primeiro assistente de direção. Foi um ato desesperado mas que, felizmente, deu certo.

Outra grande dor de cabeça foi a escolha do elenco. Marlon Brando foi aceito apenas diante da insistência quase messiânica do diretor, que como última cartada, gravou o célebre teste de elenco do ator, em que ele coloca os algodões nas bochechas e magicamente se transforma no Don Corleone.

Aqui, um vídeo em que Coppola fala sobre esses tensos momentos: https://youtu.be/rf_ybHpPbyY


Al Pacino foi outro que sofreu, pois era um quase desconhecido na época. Na visão torta dos executivos, o sucessor de Don Corleone deveria ser um ator de maior estatura e porte. Quase trocado na primeira semana, somente foi salvo quando Coppola mostrou aos produtores a emblemática sequência em que Sollozzo e Capitão McCluskey são mortos na cantina italiana.

A epopeia de Coppola à frente de uma produção repleta de ingerências e desconfianças está magistralmente documentada nos extras do DVD que trás uma versão restaurada e comemorativa. É uma delícia ouvir Coppola comentando as cenas. Ele conta os problemas da produção, aponta os erros que somente ele percebia e ironiza a parca visão dos executivos que não entendiam a mente criativa desse gênio da sétima arte.


Poucos no estúdio acreditavam no sucesso do filme e, para minimizar os riscos, deram a Coppola um orçamento restrito, de pouco mais de 6 milhões de dólares. Assim, muitas cenas hoje clássicas foram filmadas a toque de caixa. A sequência inicial, em que a maioria dos personagens são apresentados ao espectador, durante a festa de casamento da filha de Don Corleone, foi filmada em três dias. Em uma produção normal, dada a dificuldade em gerir tantos atores e situações, deveria ser dado ao diretor um tempo maior. Nos comentários de Coppola no DVD percebemos o amargor do diretor com esses problemas de produção. Ele fala que em determinadas situações se sentia dirigindo um filme B.

Claro que isso é um exagero, pois vejam só o elenco que Coppola dispunha, vejam a qualidade de seu fotógrafo Gordon Willis e da música de Nino Rota. Aliás, tal música chegou a ser rechaçada pela Paramount. Acreditem se quiser, houve quem se opusesse a esse maravilhoso tema, um dos maiores da história do cinema. Mais uma vez Coppola se viu obrigado a intervir e ameaçou sair do filme. Depois, com a cabeça no lugar, sugeriu apresentar o filme para um público restrito. Se não gostassem da música, ela seria trocada. Claro que todos adoraram.

A razão para tantas opiniões absurdas e ingerências é que muitos desses executivos (que depois quebraram a cara) estavam sendo guiados não somente por suas reais convicções estéticas, mas também por não confiarem na genialidade de Coppola, um diretor da nova geração de Hollywood e com seus próprios métodos, que andava pelos sets de filmagem com um calhamaço de papéis intitulado The Godfather's Notebook, repleto de anotações e rabiscos sobre as páginas originais do livro. Ninguém compreendia que essa foi a forma que Coppola encontrou para imergir na história de Puzo e adapta-la da melhor maneira possível. E de fato, com tantos personagens, paisagens e passagens de tempo, é incrível a forma natural como as ações fluem homogeneamente. Todos os personagens relevantes tem uma construção e um desenvolvimento; não há furos no roteiro.


Nesse link Coppola fala sobre essas anotações, que foram inclusive lançadas recentemente em livro: https://youtu.be/awce_j2myQw

Mas havia outros problemas além dos relacionados ao set de filmagem. A oposição dos ítalo-americanos ao filme era grande. Manifestações e passeatas falavam em boicote à produção e havia inclusive ameaças aos produtores. As lideranças dessas manifestações diziam que o filme lançava estereótipos sobre os descendentes de italianos. Eram a massa de manobra perfeita para os grandes chefões da máfia da cidade.

Foi preciso muitas negociações entre os mafiosos e os produtores para que as coisas se acalmassem e, assim, as locações em Little Italy fossem utilizadas. O problema é que essas negociações vazaram e, diante da recepção negativa na imprensa, quase provocaram o cancelamento das filmagens. Há inclusive um ótimo documentário sobre esses fatos chamado The Godfather and the Mob (2006). Está no Youtube: https://youtu.be/72HlbaAnZfo


Tentando se manter avesso a tudo isso, Coppola continuava lutando por seu filme. Uma cena que resume toda essa conjuntura é quando Luca Brasi visita o escritório de Don Corleone. O personagem foi interpretado por Lenny Montana, um capanga real da máfia que queria "virar ator" e foi imposto por seus chefes à produção. Só que ele não tinha o menor talento e sua cena com Marlon Brando resultou em um desastre. Coppola resolveu então colocar uma cena extra, em que o personagem, visivelmente nervoso, decora o texto que irá dizer para o seu poderoso padrinho. No DVD, Coppola fala que essa foi uma saída criativa e perfeita para um problema, que acabou "virando uma piada interna da produção."

E foi assim, driblando tantos problemas e limitações, que Coppola dirigiu esse retrato icônico da máfia que influencia até hoje os filmes com essa temática. Um sucesso imenso de bilheteria e o início de uma maravilhosa trilogia aclamada por todos. Difícil acreditar, mas por detalhes, tal trilogia que hoje todos amam, poderia nunca ter existido como tal.

Visto pela primeira vez em VHS nos anos 80 e depois revisto por incontáveis vezes em DVD e mídia digital.

sábado, 15 de outubro de 2016

GLÓRIA FEITA DE SANGUE (Paths of Glory, 1957)


UM CLÁSSICO ATEMPORAL DO CINEMA.

país produtor: Estados Unidos da América
direção: Stanley Kubrick
elenco: Kirk Douglas, Adolphe Menjou, George Macready, Ralph Meeker, Christiane Kubrick

sinopse: Em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, o general francês Mireau, ordena um ataque impossível e, diante do fracasso, instaura corte marcial para punir com a morte três soldados, acusados de covardia.

--------------------- 

Paths of Glory é um libelo anti-guerra e anti-militar poderosíssimo. De forma elegante, o roteiro e a direção de Kubrick nos leva ao espanto com a hipocrisia de relações marcadas pela hierarquia e subordinação. Os palcos: os palácios e as trincheiras da Primeira Grande Guerra, um conflito que expôs a insanidade dos governantes europeus e redefiniu o mapa mundial. 


Primeiro, somos apresentados aos palácios. Onde os generais Paul Mireau e George Broulard, por suas estrelas e promoções, decidem levar suas tropas a um ataque impossível com o objetivo de tomar um maciço chamado Colina Formigueiro. São diálogos onde o cinismo e a hipocrisia imperam.


Em seguida vemos as trincheiras, onde a morte se instalava, seja pela gripe espanhola, por gases tóxicos ou artilharia inimiga. Trincheiras essas que tornaram a guerra estática, com avanços mínimos de ambos os lados, durante meses e até anos. As opções defensivas suplantavam as de ataque. A antiquada noção dos comandantes de que para vencer uma batalha era preciso antes de tudo a coragem da tropa se esvaia a cada avanço refutado, a cada massacre. Entre os dois lados das trincheiras, a "terra de ninguém", onde o emaranhado de arames farpados e acidentes no terreno tornavam cada ataque ainda mais difícil.


Tal como ordenado, o ataque ocorre. Em cenas de guerra estupendas, um resignado Coronel Dax (Kirk Douglas) lidera seus soldados pela terra de ninguém, que pouco avançam. A segunda leva nem mesmo sai das trincheiras, sendo rechaçadas pela artilharia.

Diante da frustração do fracasso, Gen. Paul Mireau sugere, e Gen. Broulard concede, que três soldados, um de cada companhia, sejam levados a corte marcial. A acusação: covardia. Coronel Dax, agora indignado, pede para ser o advogado de defesa, na tentativa de impedir o fuzilamento. Temos aí o cerne da obra: um coronel em busca de justiça, contra a hipocrisia de dois generais.  


Considero esse o melhor filme de Stanley Kubrick. O apuro técnico é impressionante. A fotografia, uma das melhores que já vi. A parte sonora também é excepcional. Elenco formidável. Que defeito há nesse filme? Não encontrei.

O roteiro não fica atrás, é brilhante. Em menos de uma hora e meia, ótimos diálogos dão profundidade a diversos personagens, em um trabalho de concisão incrível. E o final... que cena surpreendente e bela. Lágrimas são inevitáveis. É o sopro de esperança que nos faz acreditar, ao fim, na humanidade.

Um filme como esse, que expõe o cinismo do discurso dos senhores da guerra, não pode nem nunca será esquecido. Eis aí, então, meus últimos adjetivos: Glória Feita de Sangue é um clássico atemporal do cinema.

Visto em VHS nos anos 90 e revisto por duas vezes em arquivo digital, em 2015 e 2016.

domingo, 3 de abril de 2016

CIDADE DOS SONHOS (Mulholland Drive, 2001)


DAVID LYNCH PROPÕE AO ESPECTADOR UM JOGO... E QUEM O JOGA TEM UMA EXPERIÊNCIA INESQUECÍVEL.

país produtor: Estados Unidos da América, França // direção e roteiro: David Lynch // elenco: Naomi Watts, Laura Harring, Justin Theroux

sinopse: Uma misteriosa morena com amnésia (Laura Harring) se esconde em um apartamento vazio até ser descoberta por uma jovem atriz (Naomi Watts) recém chegada a Los Angeles. Ela não sabe o seu nome, mas ao ver um cartaz de um filme estrelado por Rita Hayworth, se autonomeia Rita. Já Betty, às voltas com seus sonhos de se tornar uma atriz famosa, resolve ajudá-la, sem nem mesmo imaginar que essa jornada irá revelar fortes laços que as unem.

Metascore: 81 (from metacritic.com)

-------------------------- 

Cidade dos Sonhos seria originalmente uma nova série televisiva de Lynch, autor em 1990 de um título que foi um divisor de águas na TV americana: Twin Peaks. Porém, a produtora abandonou o projeto e o cineasta, com o apoio do Canal Plus (França), realizou essa grande obra surrealista, que arrebatou elogios, colecionou prêmios e foi, inclusive, indicado ao Oscar de melhor diretor em 2002.

Não é um filme fácil. É preciso despreendimento do espectador para acompanhar a trama que, mesmo tendo um claro fio narrativo, por vezes investe em um clima de sonho, suspensão da realidade e flashbacks desconectados que pode irritar e desorientar. Por isso, vale aqui ressaltar a importância da grande atuação de Naomi Watts, que ajuda com sua beleza e entrega, a sustentar a atenção da plateia nessa difícil jornada que o seu personagem inicia.

A partir daqui, tentarei fazer uma análise sobre o que entendi do filme após a segunda vez que o apreciei. Na primeira, no cinema, entendi muito pouco, apesar de ter gostado muito do que vi. Aviso importante: o texto a seguir contém diversos spoilers.

No meu modo de ver Cidade dos Sonhos é um filme sobre a morte e a busca de duas mulheres, em uma espécie de limbo, pela verdade do que elas eram em vida e as circunstâncias que envolveram o seu trágico fim.

E quem são essas mulheres? Ou melhor, como o filme nos apresenta elas nas primeiras cenas? É importante analisar isso.

Primeiro somos apresentados a Rita, envolvida em um acidente inesperado em Mulholland Drive (estrada famosa de Los Angeles) e que, desorientada, se esconde em um apartamento. Lá ela adormece e sonha cenas desconexas, onde não está presente. Vemos telefones tocando, mafiosos atendendo e falando coisas do tipo "ela continua desaparecida". Há também uma memorável cena de um homem desmaiando ao ver uma criatura horripilante. A essa altura o espectador desavisado deve estar se perguntando "que diabos é isso"... Pois é, isso é David Lynch.

Em seguida surge em cena Betty, personagem de Watts, que se mostra linda, feminina, talentosa e sorridente ao chegar em Los Angeles. Seu desejo: ser uma atriz reconhecida, brilhar em Hollywood.

O contraponto entre essas duas personagens se estabelece quando elas se encontram no apartamento cedido pela tia de Betty, onde Rita se escondeu. Rita está desmemoriada, frágil. Já Betty, repleta de atitude e coragem, resolve ajuda-la, motivada por um sentimento de proteção que, mais tarde, entenderemos ser de remorso, oriundo de quando elas eram íntimas, em vida. No entanto, nesse início de filme, Betty e Rita nada sabem sobre isso. Estão em processo de autoconhecimento, vivendo hora um sonho dentro de um sonho (Rita), hora na irrealidade, na pura fantasia (Betty).



Esses dois estados, fantasia e sonho, não são muito claros para o espectador. Em diversos momentos, não sabemos onde termina um e começa o outro. Não sabemos nem mesmo se há algo de "real" no que os personagens estão vivendo em tela. Acho isso encantador nesse filme, por não querer e nem se atrever a nos dar respostas prontas.

O filme avança. Há uma linha narrativa que centra na busca de ambas sobre quem é Rita. Há também a busca de Betty pelo reconhecimento como atriz, que faz um teste de elenco bem sucedido. Há ainda os sonhos - ou memórias? - de Rita, em que conhecemos melhor outros personagens do filme e, em especial, Adam Kesher, um diretor pressionado pelos produtores a escalar uma atriz em seu próximo filme. Esse personagem é peça chave na conexão, em vida, entre Betty e Rita.

A busca de ambas pelo passado de Rita culmina com a ida ao Club Silêncio. É o momento mais grandioso do filme. As palavras proferidas no palco do clube “Não há banda. É só uma gravação. É uma ilusão” são direcionadas não só para as personagens, mas para nós espectadores. Ainda no clube, dentro de sua bolsa, Betty encontra um cubo azul. O rosto das duas diante desse cubo denota não só surpresa, mas medo do que pode estar por revelar-se. Elas levam o cubo ao apartamento, o cubo é aberto com uma chave que simboliza a morte e ambas, surpreendentemente, somem do quarto. A tia de Betty, que vimos no início do filme carregando as malas para uma viagem, abre a porta do quarto. Ela nada encontra, apesar de ter sentido a presença de algo estranho. Será que ela viajou mesmo ou sempre esteve presente naquele apartamento?

A partir daí o filme dá uma guinada e um nó na cabeça do espectador. Somos apresentados à Betty real, com dentes sujos, trejeitos masculinos, sem maquiagem, morando em uma casa escura, suja e feia. Descobrimos ainda algo surpreendente: ela é a mulher morta que apareceu em uma dramática cena anterior, antes da ida ao Club Silêncio.

E Rita, quem é Rita realmente? Dominadora, manipuladora e maldosa, ela é amante ocasional de Betty e está noiva de Adam, o diretor de cinema.

Betty sente que está sendo deixada para trás, sente que é, no fundo, uma fracassada. Nasce então nela o desejo de matar Rita. O plano é executado com a ajuda de um bandido pé de chinelo. Mas Betty, atormentada pelo remorso e pelos sonhos e lembranças com Rita, se suicida.

Ou seja, temos aqui uma história aparentemente comum envolvendo um triângulo amoroso, traição, vingança e tragédia, só que contada de uma forma subvertida, simbólica e muito inteligente. Com ecos de filmes noir, críticas à leviandade artística da sub-hollywood e cenas de lesbianismo sensacionais, Cidade dos Sonhos é a obra-prima inesperada de David Lynch, esse cineasta tão ímpar, tão outsider.

Cineasta esse com uma filmografia repleta de obras onde o surrealismo se faz presente, sempre de uma forma respeitosa à tradição iniciada por Buñuel, mas também com um caráter muito particular, onde a subversão da narrativa tradicional ao mesmo tempo que afasta um certo tipo de público, o aproxima de outro, mais acostumado a filmes artísticos e sensitivos, que não se preocupam com o entretenimento em primeiro lugar.

Seja como for, eu me divirto muito toda vez que vejo esse filme, pois ele é como um livro com diversas páginas em branco, onde cada espectador é convidado a preenchê-las. E toda vez que revejo Cidade dos Sonhos as páginas são preenchidas com algo novo.

Lembro-me que a repercussão à época do lançamento de Cidade dos Sonhos foi muito grande, com muitos querendo compreender essa história trágica. Não à toa, é possível encontrar na internet muitas outras interpretações, desde aqueles tempos. Felizmente, não há um caminho certo a seguir ao ver esse filme, por isso o meu conselho é que se você for assisti-lo, vá de mente aberta e depois chegue a suas próprias conclusões, que podem ser bem diferentes das minhas.

Visto em 2002 no Espaço Unibanco de Cinema. Revisto desde então por 3 vezes em DVD e, em 2014, no Netflix.


domingo, 7 de fevereiro de 2016

DANÇA COM LOBOS (Dances with Wolves, 1990)


UM CLÁSSICO ETERNO SOBRE RESPEITO, EDUCAÇÃO E AMIZADE.

país produtor: Estados Unidos da América // produção e direção: Kevin Costner // elenco: Kevin Costner, Mary McDonnell, Graham Greene, Rodney A. Grant, Floyd 'Red Crow' Westerman

sinopse: Durante a Guerra Civil Americana, o tenente confederado John Dunbar se torna involuntariamente um herói e assume, por opção, no posto mais próximo da fronteira com o Canadá, no que hoje é o Estado de Dakota do Norte. Lá ele inicia uma amizade com uma tribo de índios Sioux ao mesmo tempo em que se preocupa com a iminente e inevitável ocupação dos brancos a esse território, desde sempre ocupado pelos índios.

Metascore: 72 (from metacritic.com)

-------------------------- 

No início dos anos 90 Kevin Costner surpreendeu o mundo ao anunciar que iria produzir, dirigir e protagonizar Dança com Lobos, um faroeste com mais de três horas de duração. Ator em ascensão, Costner nunca havia dirigido um filme, nem mesmo um mero curta metragem. Roteirizado pelo desconhecido Michael Blake, esse épico seria falado em grande parte no dialeto das tribos Sioux que habitaram as grandes pradarias dos EUA, o que necessitaria do uso de legendas. O tema - a conquista do Oeste - era tido como ultrapassado pela indústria cinematográfica. Não à toa, previa-se em Hollywood um retumbante fracasso. Para completar, Costner estourou o orçamento de 15 milhões de dólares e empenhou 3 milhões das suas próprias economias para terminar o filme do jeito que imaginava.

Mas eis que com o filme pronto toda essa desconfiança se esvaiu. Pois bem... Dança com Lobos se revelou não só um grande filme, vencendo meses depois 7 Oscars, mas também se tornou a terceira maior bilheteria de 1990, indo muito além do que os mais otimistas acreditavam.

Apesar de todo esse surpreendente sucesso, até recentemente eu considerava essa obra como um produto típico para ganhar Oscar, embalado por um discurso açucarado e politicamente correto. Mas, graças ao acesso que tive a uma versão estendida, com 4 horas de duração, me entusiasmei por revisitar esse filme. Preciso de vez em quando por minhas crenças a prova e era a vez de fazer isso com um "director's cut". Foi uma boa tática.

Foi então que um novo filme se revelou para mim. Antes eu o havia assistido em fitas VHS, em uma TV de 21 polegadas; agora a qualidade digital somada a uma TV widescreen de 46 polegadas ampliou em muito meus horizontes. Mas não foi só. Entendi o propósito do filme. Entendi a cabeça do realizador e a ideologia contida em cada uma das cenas filmadas lindamente por Kevin Costner. Abri minha mente de tal forma para a saga de John Dunbar que por diversas vezes me emocionei.


Agora, para escrever essas linhas, revi o filme... Uau! O impacto continua o mesmo! Que poder Dança com Lobos tem, a ponto de eu não me cansar de reviver e rememorar suas passagens e seus diálogos?

Pergunto isso pois, claro, sei que está tudo lá que os detratores do filme criticam: o discurso fácil e simplista do "índio ecológico" em contraste aos invasores brancos e consequente destruição à natureza selvagem. Está também o repetitivo padrão do herói branco e altruísta, que salva os menos favorecidos e minorias. Há ainda uma certa negligência do roteiro às tradições e costumes indígenas, além de erros em relação aos diálogos sioux. Ok... Mas mesmo assim eu me pergunto: por que meu coração não dá importância a esses detalhes? Que mágica é essa que faz esse filme tão especial não só pra mim, mas para uma legião de fãs que só aumenta? Será que sou capaz de responder? Vou tentar.


Dança com Lobos é um filme que, como nenhum outro,  retrata a traumática "conquista do oeste" sem fazê-la soar piegas ou maniqueísta. Para isso, Kevin Costner e Michael Blake conseguem, com grande equilíbrio, mostrar que o bem e o mal não são atributos determinados pela cor da pele, mas sim por um senso íntimo de moralidade e ética, encontrado em qualquer etnia.

O contexto histórico em que se passa a história é pincelado aqui e ali, de forma natural. As informações sobre as rusgas entre índios e brancos são passadas em pequenos momentos, como quando o Tenente John Dunbar pede para ser lotado no posto mais próximo da fronteira, para vê-la "antes que acabe". Ou então quando ele, a caminho do posto, pergunta sobre os índios, no que escuta adjetivos pouco abonadores e ignorantes sobre esse povo, e balança a cabeça, negativamente.

Quando John Dunbar chega ao posto o cenário é desolador. Abandonado, há animais mortos e lixo no entorno. Mesmo diante desse cenário, John Dunbar resolve ficar. E então, sozinho, começa a arrumar a bagunça, sempre a espera da próxima caravana, que nunca chega.

Eis então que aqueles por quem ele sempre perguntou (e temeu) aparecem: índios de uma tribo próxima, que tentam furtar por três vezes seu cavalo Cisco. O tenente, temendo o pior, começa uma aproximação. É aí que somos conquistados. John Dunbar se revela um modelo de cavalheirismo e respeito para com o "outro", o diferente, de uma forma tão arrebatadora que é impossível não se emocionar e se identificar.

Assim, Dança Com Lobos celebra o que há de melhor no ser humano. Celebra a amizade, a vontade de cativar e aprender com as diferenças. Celebra o encontro de pessoas boas, com bons propósitos e ideais e que, infelizmente, seriam uma ilha de civilidade em meio ao ódio e a ignorância que marcou a relação dos brancos para com os índios.

Mas Dança com Lobos não é somente John Dunbar. Além do tenente, a gama de personagens cativantes se completa com os inesquecíveis Kicking Bird (Pássaro Esperneante), Wind In His Hair (Vento no Cabelo), Ten Bears (Dez Ursos) e Stands with a Fist (Em Pé Com um Punho).


Com um ritmo todo especial, Dança com Lobos é um filme que não tem pressa de contar a sua história, algo raro e bastante gratificante de se ver. É linda a aculturação de John Dunbar. Contudo é relevante observar que ela se deu por um desejo natural e emocional do personagem, que se desenvolve pouco a pouco. Se o acaso contribuiu para que ele se unisse a tribo, determinante foi o seu coração e a sua relação, sempre de igual para igual, olho no olho, com os índios Sioux. Não há um mínimo de prepotência no tenente, mas sim, humildade. É um personagem apaixonante.

Os índios, especialmente Vento nos Cabelos e Pássaro Saltitante, também se deixam fascinar, pouco a pouco, por John Dunbar, quando percebem nele o mesmo amor ao mundo natural que eles nutrem. Sua relação com o lobo Duas Meias, sua amizade com o cavalo Cisco, fazem parte não só da sua jornada, mas se estendem à própria produção do filme: nos créditos finais, os animais treinados para "interpretar" esses personagens estão relacionados junto ao elenco, em uma prática incomum e que diz muito sobre os propósitos dessa obra.


Dança com Lobos é um raro filme que, antes de ser analisado por aspectos técnicos ou de forma racional, deve ser visto como uma experiência emocional. Para mim, nunca um filme de quatro horas foi tão gratificante de assistir, a ponto de eu já sentir saudade de seus personagens e lembrar com carinho de algumas cenas.

Que mágica é essa? Será que fui capaz de responder? Acredito que não... Só mesmo vendo esse filme e se deixando levar, na jornada do tenente John Dunbar, para entender tudo que eu estou falando.

Versão de 3 horas vista em VHS em 1991. Director's Cut, com 4 horas de duração, assistido em arquivo digital, em 2014 e 2016.