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sábado, 15 de outubro de 2016

GLÓRIA FEITA DE SANGUE (Paths of Glory, 1957)


UM CLÁSSICO ATEMPORAL DO CINEMA.

país produtor: Estados Unidos da América
direção: Stanley Kubrick
elenco: Kirk Douglas, Adolphe Menjou, George Macready, Ralph Meeker, Christiane Kubrick

sinopse: Em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, o general francês Mireau, ordena um ataque impossível e, diante do fracasso, instaura corte marcial para punir com a morte três soldados, acusados de covardia.

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Paths of Glory é um libelo anti-guerra e anti-militar poderosíssimo. De forma elegante, o roteiro e a direção de Kubrick nos leva ao espanto com a hipocrisia de relações marcadas pela hierarquia e subordinação. Os palcos: os palácios e as trincheiras da Primeira Grande Guerra, um conflito que expôs a insanidade dos governantes europeus e redefiniu o mapa mundial. 


Primeiro, somos apresentados aos palácios. Onde os generais Paul Mireau e George Broulard, por suas estrelas e promoções, decidem levar suas tropas a um ataque impossível com o objetivo de tomar um maciço chamado Colina Formigueiro. São diálogos onde o cinismo e a hipocrisia imperam.


Em seguida vemos as trincheiras, onde a morte se instalava, seja pela gripe espanhola, por gases tóxicos ou artilharia inimiga. Trincheiras essas que tornaram a guerra estática, com avanços mínimos de ambos os lados, durante meses e até anos. As opções defensivas suplantavam as de ataque. A antiquada noção dos comandantes de que para vencer uma batalha era preciso antes de tudo a coragem da tropa se esvaia a cada avanço refutado, a cada massacre. Entre os dois lados das trincheiras, a "terra de ninguém", onde o emaranhado de arames farpados e acidentes no terreno tornavam cada ataque ainda mais difícil.


Tal como ordenado, o ataque ocorre. Em cenas de guerra estupendas, um resignado Coronel Dax (Kirk Douglas) lidera seus soldados pela terra de ninguém, que pouco avançam. A segunda leva nem mesmo sai das trincheiras, sendo rechaçadas pela artilharia.

Diante da frustração do fracasso, Gen. Paul Mireau sugere, e Gen. Broulard concede, que três soldados, um de cada companhia, sejam levados a corte marcial. A acusação: covardia. Coronel Dax, agora indignado, pede para ser o advogado de defesa, na tentativa de impedir o fuzilamento. Temos aí o cerne da obra: um coronel em busca de justiça, contra a hipocrisia de dois generais.  


Considero esse o melhor filme de Stanley Kubrick. O apuro técnico é impressionante. A fotografia, uma das melhores que já vi. A parte sonora também é excepcional. Elenco formidável. Que defeito há nesse filme? Não encontrei.

O roteiro não fica atrás, é brilhante. Em menos de uma hora e meia, ótimos diálogos dão profundidade a diversos personagens, em um trabalho de concisão incrível. E o final... que cena surpreendente e bela. Lágrimas são inevitáveis. É o sopro de esperança que nos faz acreditar, ao fim, na humanidade.

Um filme como esse, que expõe o cinismo do discurso dos senhores da guerra, não pode nem nunca será esquecido. Eis aí, então, meus últimos adjetivos: Glória Feita de Sangue é um clássico atemporal do cinema.

Visto em VHS nos anos 90 e revisto por duas vezes em arquivo digital, em 2015 e 2016.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

PACÍFICO - O OUTRO LADO DA GUERRA (The Pacific, 2010)


UMA SÉRIE MAGNÍFICA. TÃO BOA OU MELHOR QUE BAND OF BROTHERS.

país produtor: Estados Unidos da América // produtores: Steven Spielberg, Tom Hanks, Gary Goetzman // elenco: James Badge Dale, Jon Seda, Joseph Mazzello

sinopse: A história de três fuzileiros navais americanos na guerra contra o Império japonês no oceano Pacífico durante a Segunda Grande Guerra. Série baseada em dois livros de memórias de integrantes da Marinha dos Estados Unidos, With the Old Breed: At Peleliu Okinawa, de Eugene Sledge, e Helmet for My Pillow, de Robert Leckie.

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É impossível escrever sobre essa série em 10 episódios sem citar a sua "irmã", Band of Brothers. Por isso, vou logo de cara afirmando que as duas séries produzidas pela HBO em parceria com a DreamWorks (de Steven Spielberg) são igualmente muito boas, nenhuma delas perfeita. E um aviso: esse meu extenso comentário está repleto de spoilers. Se você não viu The Pacific, pare por aqui.

Para quem não está familiarizado com os eventos da Segunda Guerra Mundial, Pacífico retrata a guerra dos fuzileiros navais americanos contra o Japão, tendo como palco ilhas inóspitas do Pacífico. Essa foi uma guerra muito diferente da travada em solos europeus e africanos, contra os fascistas de Musolinni e o nazismo alemão de Hitler. Além da dificuldade que envolve a conquista de uma ilha, por mais mísera que ela seja, havia ainda o espírito altamente beligerante e fanático do soldado japonês, que, reiteradamente desrespeitava as convenções e tratados de guerra, transformando essas ilhas em território para o mais puro sadismo. Por isso, em situações como as mostradas, de terrível insalubridade e insanidade, não havia muito espaço para patriotismo ou atos heróicos.


Não é a toa, muitos ex-combatentes sentiram-se incomodados com o retrato pintado onde soldados americanos, levados ao limite emocional, também cometeram muitos crimes de guerra. Mas, será que existe guerra limpa, realmente? Seja qual for a resposta, o fato é que essa série, infelizmente, pouco mostra das motivações para o inacreditável espírito de combate dos "japs", o que tornava quase impossível a negociação e a rendição. Lamentavelmente, quase não vemos aqui os japoneses cometendo crimes de guerra. E não foram poucas as atrocidades documentadas e levadas aos tribunais do pós-guerra... É senso comum entre os historiadores o caráter fanático dos japoneses como a principal causa do derramamento de sangue nas ilhas do Pacífico. Olhando por esse lado, não dá para não dar razão aos ex-combatentes.

Um aspecto bastante positivo de Pacífico é que, do ponto de vista narrativo, a série é bem mais ousada do que Band of Brothers. Apesar de respeitar uma linearidade temporal, aqui temos três histórias sendo contadas, correndo em paralelo. Valendo-se de personagens reais, temos então um herói de guerra que se destaca pela coragem e pela perícia com armamento - John Basilone; um inexperiente Eugene Sledge, (que tem um bom arco dramático em que acompanhamos a sua evolução como fuzileiro em meio ao horror) e, finalmente, o mais complexo dos personagens e que tem, ao meu ver, o destino mais insatisfatório: Robert Leckie.


Começando por Robert Leckie, acompanhamos sua estada em Guadalcanal. E aqui vai um ponto negativo: as cenas de guerra desses primeiros episódios não conseguiram retratar o horror desse lugar e a insalubridade de tudo. Muito escuras e confusas, me fizeram pensar o que havia acontecido com o padrão exibido em Band of Brothers e Saving Private Ryan, de Spielberg.

Nessa mesma ilha, John Basilone se destaca e é enviado para os EUA, para ajudar na campanha de arrecadação de títulos de guerra. Já Leckie e os demais marines ficam por meses em Melbourne, o único momento de paz que viveriam durante a guerra. Leckie vive nessa bela cidade um romance que, no final das contas, de nada acrescentará para a sua trajetória na série. Apesar da lindíssima cena de sexo que esse romance proporcionou, sinto que essa história poderia ser limada, pois sua conclusão a transformou apenas em algo frustrante e incompleto para o público.

Os melhores episódios são lá pelo meio da série, quando entra em cena, definitivamente, Eugene Sledge. As cenas de batalha em Peleliu para a tomada de uma pista de pouso e das montanhas de rocha ao redor são impressionantes. A engenhosidade dos diretores em recriar esses eventos, o domínio narrativo e dramático, a entrega do elenco, os efeitos visuais e sonoros, a perfeita equação de música e montagem em um timing perfeito, fazem dessas cenas uma das melhores que já vi em toda minha vida.

Logo em seguida vem o momento mais triste da série: o destino de John Basilone, que morre em Iwo Jima após se alistar novamente. Apesar do patriotismo de sua escolha, fica o gosto amargo da banalidade da morte naquela ilha inóspita. E assim a série perde um personagem com uma trajetória bastante ampla, com ações em campos de batalha, treinamentos em academias (ele foi instrutor por um tempo) e em um dos lados menos lembrados da guerra, que é o ligado a propaganda e angariação de recursos. Hoje Basilone é lembrado como um dos grandes heróis da Segunda Grande Guerra.


A partir da morte de Basilone e da baixa de Leckie por ferimentos em Peleliu, a série foca em Sledge e seus companheiros às voltas com a invasão a Okinawa. São os momentos em que vemos civis sendo mortos deliberadamente por raiva, mas também por medo de que carregassem explosivos ou fizessem parte de algum plano de emboscada. A dramaticidade desses eventos mostra que guerras não são lutas apenas entre soldados. A morte de civis é o lado mais perverso e chocante de um conflito bélico.

Quando a situação em Okinawa estava praticamente resolvida, eis que tem-se a notícia das bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki, eventos esses tão dramáticos que puseram um fim ao conflito. Em comentários que li em outros sites, percebi que alguns ficaram decepcionados por esses ataques ficarem restritos a uma conversa entre os fuzileiros, na base do “ouvi dizer que”. Não concordo com essas críticas. A série foca na vida (ou na desgraça) desses americanos, apenas isso. E esse foco é a força da série. Nada mais natural portanto que as ações que os fuzileiros não fizeram parte, como o lançamento das bombas, ficassem restritos a uma conversa e vagas informações. Em termos narrativos, muitas vezes menos é mais.

Aqui faz-se necessário um adendo: uma guerra nunca é vencida apenas por um tipo de frente. Além dos fuzileiros, havia uma guerra marítima sendo travada, havia a aviação e, claro, a guerra do conhecimento, cujo maior exemplo é a quebra de códigos secretos e a corrida pela fabricação da primeira bomba atômica. Essa última guerra, secreta, é naturalmente a guerra do “ouvi dizer que”. Foram preciso três dias para o Japão, atônito, se render diante da força destruidora daquilo que japoneses e também os marines americanos não compreendiam ainda. Foi uma cartada de mestre. A invasão à principal ilha do Japão levaria a guerra no Pacífico a um número absurdamente mais elevado de vítimas civis e militares. Para se ter algum parâmetro de comparação, na invasão a Okinawa, mais de cem mil civis foram mortos ou cometeram suicídio. Em um bombardeio a Tokyo, com dois mil aviões, mais de setenta mil civis morreram em meio a uma cidade ardendo em chamas. Mas se esses números não o convencerem, há ainda o fato de que a URSS estava pronta para invadir o Japão pelo norte, no que poderia resultar hoje em um país dividido, da mesma forma que ocorre com a Coréia até os dias de hoje. As bombas fizeram nascer um Japão da paz, como canta Gilberto Gil.


Infelizmente, me frustrei com o décimo e último capítulo da série. Achei-o um anticlimax. A volta pra casa, a readequação dos soldados à vida civil, a falta de rumo, os traumas de guerra, tudo isso poderia ser melhor explorado dramaticamente. O ritmo mais lento dessa episódio realçou essa minha impressão, no que eu acredito ter sido o único vacilo da edição, até então impecável.

Finalizando, The Pacific é uma série sensacional que, compreensivamente, sofre com as comparações frente a popularidade de Band of Brothers. Mas, para mim, esse magnífico espetáculo não fica nada a dever a sua antecessora, muito pelo contrário, pois a completa, sendo uma experiência inesquecível para todos que, como eu, adoram filmes de guerra.

Visto em 2015, em arquivo digital.

domingo, 10 de janeiro de 2016

SNIPER AMERICANO (American Sniper, 2014)


A BIOGRAFIA DO MILITAR CHRIS KYLE TEM COMO MAIOR QUALIDADE SE MANTER À MARGEM DE QUALQUER IDEOLOGIA.

país produtor: Estados Unidos da América // direção: Clint Eastwood // elenco: Bradley Cooper, Sienna Miller, Kyle Gallner

sinopse: Biografia de Chris Kyle (Bradley Cooper), atirador de elite das forças especiais da marinha americana. Durante cerca de dez anos, em quatro incursões, ele matou mais de 150 pessoas, tendo recebido diversas condecorações por sua atuação na Guerra do Iraque.

Metascore: 72 (from metacritic.com)

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Filme mais polêmico de 2014, Sniper Americano dividiu opiniões mundo afora, com muitos enxergando nesse filme uma retórica direitista de apoio ao intervencionismo americano pós 11 de Setembro. Nada mais fora da realidade.

Diferente do que pensa o pessoal mais à esquerda e anti-americano, não vi nesse filme uma visão preconceituosa sobre o Iraque ou os iraquianos. O que eu vi em Sniper Americano foi um tratamento neutro de Eastwood sobre essa guerra infame que os Estados Unidos inventaram, juntamente com a Inglaterra de Tony Blair, após o ataque às Torres Gêmeas.

SNIPER

Me pareceu que o diretor estava mais preocupado com o ser humano Kyle do que com o lado político ou ideológico da guerra. Kyle é uma pessoa com visão simplista sobre as coisas. De sua boca não sai nenhuma palavra de desagravo à guerra no Iraque (de outros soldados há palavras de descontentamento). Ele parece encarar o seu trabalho exatamente como isso, um trabalho; no caso, matar insurgentes iraquianos antes que esses matem seu colegas. É dessa "ignorância" que vem a força dele para aguentar o tranco de quatro incursões ao Iraque. O filme tem essa mensagem. Para ser um excelente soldado, é melhor não pensar.

Lendo os comentários por aí na internet, vejo que muitos são tomados por visões distorcidas e apaixonadas. Pois bem, prefiro ter a visão de Eastwood: nada é 8 ou 80. E American Sniper é um bom filme exatamente por isso.

Visto em 2015, em arquivo digital

domingo, 3 de janeiro de 2016

CARTAS DE IWO JIMA (Letters from Iwo Jima, 2006)


UM RETRATO SENSÍVEL DO LADO PERDEDOR DA GUERRA DO PACÍFICO.

país produtor: Estados Unidos da América // direção: Clint Eastwood // elenco: Ken Watanabe, Kazunari Ninomiya, Tsuyoshi Ihara, Ryo Kase, Shidou Nakamura

sinopse: A batalha pela conquista da ilha de Iwo Jima durante a Segunda Guerra Mundial pela perspectiva dos japoneses derrotados.

Metascore: 89 (from metacritic.com)

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Antes de mais nada, Kazunari Ninomiya, como o ex-padeiro que luta pela sobrevivência, está bem mais ou menos. Mas Cartas de Iwo Jima é tão bom, que não é uma atuação deficiente que será capaz de apagar as coisas belas desse filme, a obra-prima de Eastwood ao lado de Os Imperdoáveis.

A fotografia é soberba, não só pela escolha das cores, mas também pela iluminação dos cenários e dos corpos de soldados fadados a morrer, esquecidos em meio a megalomania imperialista de um país que, após as conquistas de inúmeras ilhas no pacífico e colônias no sudeste asiático, não puderam deter a impressionante reação dos Estados Unidos e sua máquina de guerra.

É um filme que fala de muitas coisas. Fala da derrota de um exército, a essa altura desmantelado, mal treinado, atrasado. Cartas de Iwo Jima é um raio-x límpido da derrota japonesa na segunda grande guerra.

Fala do fanatismo de um povo. Dos males do totalitarismo. De como a crença em um rei "divino" cegou uma nação próspera, levando à opressão, a supressão de liberdades, a milhares de mortes e traumas. As posteriores bombas atômicas foram a desculpa perfeita para que Hirohito, o rei macabramente "divino", declarasse a rendição incondicional, mesmo contra a opinião de generais incompetentes, que preferiam o massacre de seu próprio povo e mais destruição.


Por fim, fala de honra. Mas que honra? Explodir uma granada junto ao peito é mais honroso do que lutar até o fim? Triste distorção de valores...

Porém, mesmo falando de tantos aspectos ruins de uma nação derrotada em guerra, Cartas de Iwo Jima é extremamente respeitoso com os japoneses. Há humanidade nos personagens. O filme passa a acertada mensagem de que, naquela ilha, todos eram vítimas.

Como não poderia deixar de ser, o filme tem vários momentos pró Estados Unidos, o que eu não considero um problema. Há apenas uma cena em que soldados americanos cometem um crime de guerra. Em contrapartida, o exército japonês, conhecido por suas atrocidades, é quase poupado de cenas infames, que relembrariam os muitos crimes de guerra cometidos fanaticamente. No mais, é o poderio bélico americano que impera, em cenas de guerra muito boas.

Sensível, Cartas de Iwo Jima tem o poder de emocionar não só americanos, mas japoneses. Pois o Japão renascido do pós-guerra se converteu em uma nação de paz, ciente, assim como a Alemanha, de seus erros passados que, espero, não se repetirão jamais. Um filme inesquecível.

Visto em 2015 em arquivo digital.