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sábado, 12 de novembro de 2016

FARGO - UMA COMÉDIA DE ERROS (Fargo, 1996)


UMA SUTIL E DIVERTIDA CRÍTICA A UMA SOCIEDADE DOENTE.

país produtor: Estados Unidos da América
direção e roteiro: Joel e Ethan Coen
elenco: Frances McDormand, Steve Buscemi, William H. Macy

sinopse: um homem arma o sequestro de sua própria esposa afim de embolsar o resgate de seu rico sogro. Só que as coisas não saem como planejado, levando uma policial grávida (Frances McDormand) a tentar elucidar o caso.

Metascore (metacritic.com): 85

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Fargo não quer ser levado a sério desde os seus dizeres iniciais, quando se anuncia "baseado em fatos reais", uma brincadeira dos Cohen com o interesse da audiência comum, que adora filmes desse tipo.

A ambientação da história em um ponto perdido no mapa americano, em meio a um rigoroso inverno e milhares de "yaaas", garantem momentos esplêndidos. O riso e o interesse maior da obra estão nos tipos marcantes que passam pela tela, oriundos desse rincão chamado Fargo e de seus arredores.

Não há nesse filme nenhuma tentativa de se transformar os acontecimentos em algo digno de alguma reflexão maior do que a que chega a policial, com toda a sua simplicidade e, por isso, clareza: existem coisas mais importantes que o dinheiro, sabia?

Não é portanto, uma obra que nos faz, depois da sessão, parar para pensar. A história, divertida e repleta de situações que nos mantém de olhos arregalados e respiração suspensa, é tratada como se fosse banal, simples. Para os Cohen, o que está em tela é fruto de uma sociedade doente, capitalista, violenta e que se alimenta mal.

Para mim, esse tratamento dos fatos fazem de Fargo um espetáculo único, inovador. É talvez a grande obra prima dos irmãos Cohen que, recentemente, ganhou adaptação em uma boa série de TV.
 
Visto em DVD em 1997 e revisto anos depois, em arquivo digital, por duas vezes.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

FLORENCE - QUEM É ESSA MULHER? (Florence Foster Jenkins, 2016)


NA COMÉDIA OU NO DRAMA MERYL STREEP É GENIAL.

país de produção: Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte // direção: Stephen Frears // roteiro: Nicholas Martin // elenco:  Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg

sinopse: Baseado em eventos reais, o filme conta parte da vida de Florence Foster Jenkins (1868 - 1944), uma mimada grã-fina que insiste em cantar em público, mesmo não tendo talento.

Metascore: 71 (metacritic.com)

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Se há algo de genial nesse filme, é a atuação de Meryl Streep. Repleta de nuances entre o drama e a comédia, com olhares, gestuais e um domínio de cena absurdo, ela tem aqui uma atuação até melhor do que a alcançada em A Dama de Ferro (2011), seu último Oscar.

De presente para uma atriz tão extraordinária, um personagem fascinante: Florence Foster Jenkins, uma figuraça da alta roda novaiorquina, amante da música, adulada por todos e, por isso, sem "Simankol" quanto aos seus dotes vocais. Personagem real, Florence está lá no Wikipedia: ela foi uma talentosa pianista mirim e poderia ter uma bela carreira senão fosse a sífilis contraída de seu primeiro marido, na noite de núpcias. A partir daí deu aulas de piano para se sustentar até que recebeu a vultosa herança de seu pai e se tornou uma espécie de matrona musical na cidade.


O roteiro bem amarrado foca o final da vida de Florence, quando ela lutava contra os efeitos da sífilis, apesar dos prognósticos negativos dos médicos. Pois bem, já tendo se apresentado no passado informalmente como cantora lírica, ela resolve dar um passo além e contrata um professor renomado e um pianista iniciante (Simon Helberg) para acompanhá-la. Ao seu lado nessa empreitada está o seu companheiro fiel St Clair Bayfield (Hugh Grant), um frustrado ator de teatro. É ele quem organiza tudo e suborna a todos, de forma que sua amada Florence não sofra uma desilusão. Pois sim, ela acredita em seu talento como cantora, algo que beira o surreal diante do que ouvimos! As cenas em que Florence canta são hilárias. Fazia tempo que não ria tanto em um filme. 

E se eu tinha alguma dúvida quanto ao exagero de ruindade de suas performances, a própria Florence original fez questão de deixar para a posterioridade o seu "talento". Há vários vídeos no Youtube com números líricos seus, retirados de 78 rotações. Eis um deles: https://youtu.be/-quQHNriV-Q. Veredicto: a reconstituição musical do filme é perfeita.


Perfeita também é a fotografia. Lentes, tons, iluminação... tudo uma maravilha. O diretor Stephen Frears contou com a elegância de Danny Cohen, que desde O Discurso do Rei (2010) vem emplacando belos e elogiados trabalhos. Ele também assinou Os Miseráveis (2012), Garota Dinamarquesa (2015) e O Quarto de Jack (2015). Brilhante.

Florence, contudo, não é um filme perfeito. Há alguns problemas no ato final, com uma indesculpável pressa em terminá-lo, somada a uma tentativa canhestra em emocionar o público. Apesar dos momentos dramáticos serem importantes durante toda a obra, sinto que cairia melhor um final para cima, até mesmo em aberto. A comédia e a farsa são os melhores trunfos aqui.

Li algumas pessoas falando que Florence é uma "sessão da tarde de luxo". É uma boa definição. Trata-se de um título que dificilmente alguém detestará. Meryl Streep dirigida pelo competente Frears não poderia resultar em um projeto mal sucedido, ainda mais ladeada por uma dupla tão bem escolhida. Hugh Grant é um mar de simpatia e elegância. Já Simon Helberg tropeça em alguns momentos, mas é inevitável o riso quando a lente captura o seu rosto e seus olhares incrédulos diante do canto atrapalhado de sua chefe.


Meryl Streep... Não tenho medo de coloca-la no panteão como a maior das atrizes. São incontáveis seus prêmios e performances arrebatadoras. Cito aqui as para mim inesquecíveis: Kramer vs. Kramer (1979), A Escolha de Sofia (1982), Silkwood (1983), Amor a Primeira Vista (1984), Entre Dois Amores (1985), As Horas (2002), O Diabo Veste Prada (2006), A Dama de Ferro (2011) e Florence (2016).

Será que virá a 17ª indicação ao Oscar para essa atriz sensacional? Diante do que vi nesse filme, já estou na torcida.

Visto em arquivo digital em setembro de 2016.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

CAFÉ SOCIETY (Café Society, 2016)


DIVERTIDO, MAS COM IDEIAS DIFUSAS DEMAIS.

país produtor: Estados Unidos da América // direção e roteiro: Woody Allen // elenco: Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Blake Lively, Steve Carell, Corey Stoll

sinopse: Um jovem novaiorquino se muda para a Los Angeles dos anos 30 em busca de uma carreira. Em meio ao glamour de Hollywood, se apaixona pela secretária de seu poderoso tio. Enquanto isso, em Nova York, seu irmão se destaca como um gangster dono de uma casa noturna.

Metascore: 64 (metacritic.com)

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Desde o título genérico, passando pelo uso preguiçoso de um narrador (a voz é do próprio Woody Allen), até a resolução dos conflitos que o filme apresenta, temos aqui um trabalho menor do diretor e roteirista, cuja importância de sua vasta filmografia sempre nos induz a esperar algo mais de seus filmes anuais.

O roteiro é o principal problema de Café Society. Há uma profusão de situações mal estabelecidas e uma dispersão entre os enredos apresentados que atrapalha em muito para que haja um foco e, com isso, maior aproximação do público com o casal romântico. Por isso, assistimos passivos aos encontros e desencontros dos personagens de Jesse Eisenberg e Kristen Stewart, ambos apenas corretos em seus papeis. Não há envolvimento, não torcemos. Não é, nem de longe, um casal que combina.

Parece que assistimos dois filmes: um romântico, ambientado em Los Angeles, com direito a críticas à Hollywood em meio a um tom nostálgico aconchegante; e outro, uma comédia ácida de cores mais frias, ambientado em NY, com gangsters e uma impagável família judaica. Pra piorar, a edição do filme não ajuda para que esses dois filmes se encaixem.

Porém nem tudo está perdido em Café Society. Há cenas belíssimas que são um encanto às retinas. Há ainda boas cenas, com diálogos memoráveis, o que torna o filme um passatempo divertido. Mesmo em um filme menor, temos que aplaudir Woody Allen em uma cena aqui, outra ali. Ainda bem.

Visto no Net Gavea, Shopping da Gávea, Rio de Janeiro, em agosto de 2016.

domingo, 8 de maio de 2016

RELATOS SELVAGENS (Relatos Salvajes, 2014)


A FALTA DE AMBIÇÃO NARRATIVA ME FAZ QUESTIONAR O OBA-OBA CRIADO PELA CRÍTICA BRASILEIRA.

país produtor: Argentina, Espanha // direção e roteiro: Damián Szifrón // elenco: Leonardo Sbaraglia, Ricardo Darín, Oscar Martínez, Erica Rivas.

sinopse: Seis histórias sobre vingança e perda de controle emocional de seus personagens.

Metascore: 77 (metacritic.com)

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Elogiadíssimo e muito bem realizado, Relatos Selvagens me levou a questionamentos quanto a sua estrutura episódica. Pois na verdade trata-se de um longa-metragem de fachada, composto por seis curtas-metragens independentes, mas reunidos por uma atmosfera, fotografia, música e edição de primeira. 

Bateria palmas para os realizadores se eles fossem mais ambiciosos e criassem laços narrativos entre as histórias. O personagem de um episódio aparecendo em outro, uma TV ligada noticiando algo que aconteceu ou acontecerá em outro episódio, coisas assim. Relatos Selvagens tem uma estrutura narrativa cômoda demais. Bem que Robert Altman, com o seu Short Cuts (1992), poderia servir de inspiração para Damían Szifrón...

Sei que falando isso estou indo contra a imensa maioria dos críticos brasileiros, pois Relatos Selvagens encontrou em por aqui um território plácido em críticas. Já lá fora, a história foi outra. Uma rápida pesquisa no IMDb revela que o seu Metascore tem média 77.

O grande barato de Relatos Selvagens é que é o tipo de filme que provoca uma grande identificação com o público. Algumas situações nos levam a pensar como agiríamos se estivéssemos na pele desse ou aquele personagem. Todos nós temos um instinto oculto, uma vontade de explodir com tudo, de rodar a baiana e essa identificação é a força do filme. Vivas para o trabalho do elenco, com destaque para Erica Rivas como a noiva alucinada do último episódio e Rita Cortese, como a cozinheira psico do segundo episódio. Sem boas interpretações e personagens com que nos identificássemos, esse filme fracassaria.


Pra finalizar, Relatos é sem dúvida um filme divertido, mas sem ambição suficiente para tanto oba-oba. Além disso, me incomoda as comparações com o cinema argentino. Para mim, tanto argentinos quanto brasileiros nadam em uma mesma maré, dependendo aqui e ali de brilhos individuais de alguns bons realizadores.

Ou você acha que nossos hermanos só produzem O Segredo dos Seus Olhos? Há também muita coisa mais ou menos sendo feita abaixo do Rio Grande do Sul e que nem chega aos nossos cinemas.

Visto em 2015 no Shopping Batel, em Curitiba.

domingo, 27 de março de 2016

TOOTSIE (Tootsie, 1982)



DUSTIN HOFFMAN NO FIO DA NAVALHA EM UM DOS SEUS MAIORES DESAFIOS COMO ATOR.

país produtor: Estados Unidos da América // direção: Sydney Pollack // elenco: Dustin Hoffman, Jessica Lange, Bill Murray

sinopse: Um ator de teatro fracassado e temperamental (Michael Dorsey) vê que as oportunidades de trabalho estão cada vez mais escassas e resolve se passar por mulher (Dorothy Michaels) para conseguir um papel em uma novela.

Metascore: 87 (from metacritic.com)

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De vez em quando eu revejo filmes que marcaram minha infância com o intuito não só de matar saudades, mas também de tirar a prova se eles são realmente bons. Foi o que eu fiz com Tootsie, eleita pelo American Film Institute a segunda comédia americana mais engraçada de todos os tempos.

Sempre tive lembranças muito positivas de Tootsie pela curiosidade natural de ver um homem como Dustin Hoffman, com um rosto extremamente masculino, fingindo ser uma mulher. E realmente Hoffman compôs um personagem extraordinário, com seu jeito irritadiço de falar e suas improvisações durante as gravações da novela, em que Dorothy interpreta a diretora de um hospital. Claro, precisamos desligar o cérebro para acreditarmos que tudo aquilo é possível sem ninguém desconfiar, mas tudo bem, eis aí a magia do cinema.

Contribui para essa magia o grande equilíbrio entre a farsa e a realidade que o filme provoca no público graças a vulnerabilidade que Hoffman emprestou à personagem. Pois é óbvio que ele não se parece com uma mulher, mesmo que maquiado e fantasiado para tal.


Não pondero em afirmar que foi um dos papéis mais arriscados que um ator premiado e respeitado já aceitou. A chance de dar errado era muito grande e vendo a entrevista que Hoffman concedeu para o American Film Institute, percebo o quanto o ator estava inseguro enquanto compunha o papel. Ele conta que em um determinado momento da fase de pré-produção, queria "ser" uma mulher bonita, o que obviamente foi rechaçado pela equipe de maquiagem e figurino, para sua decepção. Mas foi desse desafio de compor uma mulher feia, mas ao mesmo tempo desejável; uma mulher durona, mas também amiga e amável, que nasceu Tootsie, um dos personagens inesquecíveis do cinema.

Um trecho marcante dessa entrevista pode ser visto aqui: https://youtu.be/xPAat-T1uhE

Tootsie continua um filme atual, apesar de sua datada trilha instrumental, porque tem como enredo não só a troca de identidade, mas também o drama de uma atriz, Julie Nichols, que acredita ter como único dom para vencer na vida a sua beleza. A personagem de Jessica Lange é tão vulnerável quanto a Dorothy de Dustin Hoffman. Cada sorriso e olhar de Lange (que levou o Oscar de atriz coadjuvante) carrega uma tristeza escondida, quase uma culpa, por ser bonita e assim acabar tomando as decisões erradas, ditadas pelas "regras" do mercado machista do cinema e da TV. Nada mais contemporâneo, infelizmente. É um contraponto fortíssimo para a situação vivida por Hoffman e sua Dorothy, tanto na tela quanto na vida real.

Essa crítica sutil ao machismo permeia o filme desde o momento em que Dorothy pisa no estúdio onde é gravada a novela. O diretor nem mesmo se dá ao trabalho de fazer o teste de elenco com ela, devido a sua feiura. É aí então que surge o temperamento forte da personagem, que o desanca na frente de todos, chamando a atenção da produtora da série, que resolve então contratá-la. Depois disso é inevitável o embate com o diretor, ainda mais por ele tratar Julie Nichols, por quem "Dorothy" está apaixonada, como um objeto. 


A despeito de seu início enfadonho que quase dá motivos para um espectador contemporâneo desligar a TV, Tootsie é uma comédia leve, divertida e, principalmente, com um elenco soberbo. Tem qualidades portanto para se manter entre os filmes da minha infância que, mesmo após tantos anos, mantém a aura da primeira descoberta pelo olhar inocente de uma criança. Não é a obra-prima que parte da crítica apregoa, mas é um ótimo entretenimento, que me fez esquecer da vida e dar boas risadas. E além disso termina com um clássico romântico dos anos 80: It Might Be You, com Stephen Bishop.

Visto na TV aberta nos anos 80 e revisto em 2016, em arquivo digital.