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sábado, 21 de janeiro de 2017

JANELA INDISCRETA (Rear Window, 1954)


UM FILME EXCEPCIONAL, MAS QUE INFELIZMENTE PECA NO ÚLTIMO MINUTO.

país produtor: Estados Unidos da América
direção: Alfred Hitchcock
roteiro: John Michael Hayes
elenco: James Stewart, Grace Kelly

sinopse: um fotógrafo com a perna engessada e entediado passa a observar pela janela a vida de seus vizinhos. Até que um dia ele presencia o que pode ser um assassinato, iniciando com isso uma investigação com a ajuda de sua namorada.

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Hitchcock adorava propor ao público exercícios desafiadores, usando para isso do mais puro cinema, ou seja, de suas possibilidades narrativas no uso do som, da montagem e da fotografia. Era um grande esteta, um revolucionário, um homem a frente do seu tempo, sem dúvida.

Foi também um incompreendido em Hollywood. OK, seus filmes faziam sucesso e o diretor era uma figura popular, mas o meio acadêmico não levava a sério seus filmes de suspense. Tanto isso é verdade que, até o lançamento de Janela Indiscreta, Hitchcock havia sido indicado ao Oscar em três ocasiões. Em nenhuma delas por conta de um filme desse gênero, que ele dominava como ninguém.

Temos aqui um exemplo desse pleno domínio de Hitchcock no ofício em contar uma história de mistério e suspense. Janela Indiscreta é um marco no cinema. Nunca antes um filme havia se utilizado de um único ponto de vista e se passado em tão reduzido espaço (o apartamento do personagem de Stewart) para contar, talvez, uma história de assassinato. Digo "talvez" pois tudo o que temos é a visão de um homem e de suas suposições sobre o que acontece à frente de sua janela, em Greenwish Village, Nova York.

Através de uma excelente montagem, Hitchcock dialoga com o espectador e o provoca: será tudo isso a alucinação de um homem, ou realmente aconteceu um crime? Além disso, nos brinda com uma maravilhosa ambientação sonora e visual: nas janelas abertas dos vizinhos a vida transcorre em meio aos sons de um piano, às gargalhadas, ao burburinho da cidade. Sons esses que muitas vezes substituem a trilha sonora, algo muito a frente do seu tempo, há 60 anos atrás, quando uma trilha sonora presente e pouco sutil era a tônica do cinema de Hollywood.

Visto pela primeira vez na minha adolescência, foi um prazer rever esse clássico depois de tanto tempo, pois me foi revelado o quanto ele ainda hoje pode surpreender esteticamente ao público contemporâneo, o que é incrível. Contudo, não pude deixar de me decepcionar, em seu desfecho, com a surpresa desnecessária diante de uma suposição que, confirmada, foi difícil de engolir (prefiro não citá-la para evitar spoiler). Ainda assim, a ousadia do cineasta em entregar ao grande público um exercício narrativo como esse tem que ser sempre louvado. O erro na conclusão é um problema menor diante das qualidades desse que é, com toda justiça, um filme referência para qualquer grande amante da sétima arte.

Visto em VHS nos anos 80 e revisto em 2014 no Netflix.

sábado, 12 de novembro de 2016

FARGO - UMA COMÉDIA DE ERROS (Fargo, 1996)


UMA SUTIL E DIVERTIDA CRÍTICA A UMA SOCIEDADE DOENTE.

país produtor: Estados Unidos da América
direção e roteiro: Joel e Ethan Coen
elenco: Frances McDormand, Steve Buscemi, William H. Macy

sinopse: um homem arma o sequestro de sua própria esposa afim de embolsar o resgate de seu rico sogro. Só que as coisas não saem como planejado, levando uma policial grávida (Frances McDormand) a tentar elucidar o caso.

Metascore (metacritic.com): 85

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Fargo não quer ser levado a sério desde os seus dizeres iniciais, quando se anuncia "baseado em fatos reais", uma brincadeira dos Cohen com o interesse da audiência comum, que adora filmes desse tipo.

A ambientação da história em um ponto perdido no mapa americano, em meio a um rigoroso inverno e milhares de "yaaas", garantem momentos esplêndidos. O riso e o interesse maior da obra estão nos tipos marcantes que passam pela tela, oriundos desse rincão chamado Fargo e de seus arredores.

Não há nesse filme nenhuma tentativa de se transformar os acontecimentos em algo digno de alguma reflexão maior do que a que chega a policial, com toda a sua simplicidade e, por isso, clareza: existem coisas mais importantes que o dinheiro, sabia?

Não é portanto, uma obra que nos faz, depois da sessão, parar para pensar. A história, divertida e repleta de situações que nos mantém de olhos arregalados e respiração suspensa, é tratada como se fosse banal, simples. Para os Cohen, o que está em tela é fruto de uma sociedade doente, capitalista, violenta e que se alimenta mal.

Para mim, esse tratamento dos fatos fazem de Fargo um espetáculo único, inovador. É talvez a grande obra prima dos irmãos Cohen que, recentemente, ganhou adaptação em uma boa série de TV.
 
Visto em DVD em 1997 e revisto anos depois, em arquivo digital, por duas vezes.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O PODEROSO CHEFÃO (The Godfather, 1972)



UMA OBRA-PRIMA QUE QUASE NÃO EXISTIU.

país produtor: Estados Unidos da América
direção: Francis Ford Coppola
roteiro: Mario Puzo e Francis Ford Coppola
elenco: Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall, Diane Keaton, Talia Shire

sinopse: primeiro filme da trilogia, conta a ascensão do filho caçula Michael Corleone ao posto de "padrinho" de uma família mafiosa de Nova York.

Metascore (metacritic.com): 100

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Já tanto se falou e tanto se elogiou O Poderoso Chefão que qualquer análise crítica desse obra-prima se torna redundante e o mais do mesmo. Meu interesse então não é falar do filme em si, mas sim do fato de que esse clássico poderia nunca ter existido como o conhecemos, tantos foram os problemas e intrigas que permearam a sua produção.

A história da família Corleone no cinema começou quando a Paramount, necessitando desesperadamente de uma grande bilheteria, comprou os direitos autorais do livro homônimo de Mario Puzo, um tremendo sucesso de vendas desde seu lançamento em 1969. A primeira opção para dirigir o filme não era Francis Ford Coppola mas, diante da recusa de nomes como Sergio Leone e Peter Bognadovich (por receio de fazerem uma obra que glorificasse a máfia), Coppola foi chamado.

Porém ele somente aceitou dirigi-lo quando viu uma oportunidade de fazer da história de Don Corleone e sua família uma metáfora do capitalismo (será que conseguiu?). Outro motivo, esse sim forte, era que sua produtora estava afundada em dívidas após produzir a ficção científica THX-1138, de 1971, do seu amigo George Lucas, um grande fracasso de bilheteria.

E foi assim que o jovem Coppola, sem grandes poderes dentro da Paramount, teve que negociar cada ideia sua, quase sempre encaradas com desconfiança pelos executivos. A equipe do filme tinha nomes impostos pela produtora, o que tornava o set de filmagem tenso. Isso somente foi resolvido quando ele, já na iminência de ser demitido, expulsou do set todos que não confiava, inclusive o primeiro assistente de direção. Foi um ato desesperado mas que, felizmente, deu certo.

Outra grande dor de cabeça foi a escolha do elenco. Marlon Brando foi aceito apenas diante da insistência quase messiânica do diretor, que como última cartada, gravou o célebre teste de elenco do ator, em que ele coloca os algodões nas bochechas e magicamente se transforma no Don Corleone.

Aqui, um vídeo em que Coppola fala sobre esses tensos momentos: https://youtu.be/rf_ybHpPbyY


Al Pacino foi outro que sofreu, pois era um quase desconhecido na época. Na visão torta dos executivos, o sucessor de Don Corleone deveria ser um ator de maior estatura e porte. Quase trocado na primeira semana, somente foi salvo quando Coppola mostrou aos produtores a emblemática sequência em que Sollozzo e Capitão McCluskey são mortos na cantina italiana.

A epopeia de Coppola à frente de uma produção repleta de ingerências e desconfianças está magistralmente documentada nos extras do DVD que trás uma versão restaurada e comemorativa. É uma delícia ouvir Coppola comentando as cenas. Ele conta os problemas da produção, aponta os erros que somente ele percebia e ironiza a parca visão dos executivos que não entendiam a mente criativa desse gênio da sétima arte.


Poucos no estúdio acreditavam no sucesso do filme e, para minimizar os riscos, deram a Coppola um orçamento restrito, de pouco mais de 6 milhões de dólares. Assim, muitas cenas hoje clássicas foram filmadas a toque de caixa. A sequência inicial, em que a maioria dos personagens são apresentados ao espectador, durante a festa de casamento da filha de Don Corleone, foi filmada em três dias. Em uma produção normal, dada a dificuldade em gerir tantos atores e situações, deveria ser dado ao diretor um tempo maior. Nos comentários de Coppola no DVD percebemos o amargor do diretor com esses problemas de produção. Ele fala que em determinadas situações se sentia dirigindo um filme B.

Claro que isso é um exagero, pois vejam só o elenco que Coppola dispunha, vejam a qualidade de seu fotógrafo Gordon Willis e da música de Nino Rota. Aliás, tal música chegou a ser rechaçada pela Paramount. Acreditem se quiser, houve quem se opusesse a esse maravilhoso tema, um dos maiores da história do cinema. Mais uma vez Coppola se viu obrigado a intervir e ameaçou sair do filme. Depois, com a cabeça no lugar, sugeriu apresentar o filme para um público restrito. Se não gostassem da música, ela seria trocada. Claro que todos adoraram.

A razão para tantas opiniões absurdas e ingerências é que muitos desses executivos (que depois quebraram a cara) estavam sendo guiados não somente por suas reais convicções estéticas, mas também por não confiarem na genialidade de Coppola, um diretor da nova geração de Hollywood e com seus próprios métodos, que andava pelos sets de filmagem com um calhamaço de papéis intitulado The Godfather's Notebook, repleto de anotações e rabiscos sobre as páginas originais do livro. Ninguém compreendia que essa foi a forma que Coppola encontrou para imergir na história de Puzo e adapta-la da melhor maneira possível. E de fato, com tantos personagens, paisagens e passagens de tempo, é incrível a forma natural como as ações fluem homogeneamente. Todos os personagens relevantes tem uma construção e um desenvolvimento; não há furos no roteiro.


Nesse link Coppola fala sobre essas anotações, que foram inclusive lançadas recentemente em livro: https://youtu.be/awce_j2myQw

Mas havia outros problemas além dos relacionados ao set de filmagem. A oposição dos ítalo-americanos ao filme era grande. Manifestações e passeatas falavam em boicote à produção e havia inclusive ameaças aos produtores. As lideranças dessas manifestações diziam que o filme lançava estereótipos sobre os descendentes de italianos. Eram a massa de manobra perfeita para os grandes chefões da máfia da cidade.

Foi preciso muitas negociações entre os mafiosos e os produtores para que as coisas se acalmassem e, assim, as locações em Little Italy fossem utilizadas. O problema é que essas negociações vazaram e, diante da recepção negativa na imprensa, quase provocaram o cancelamento das filmagens. Há inclusive um ótimo documentário sobre esses fatos chamado The Godfather and the Mob (2006). Está no Youtube: https://youtu.be/72HlbaAnZfo


Tentando se manter avesso a tudo isso, Coppola continuava lutando por seu filme. Uma cena que resume toda essa conjuntura é quando Luca Brasi visita o escritório de Don Corleone. O personagem foi interpretado por Lenny Montana, um capanga real da máfia que queria "virar ator" e foi imposto por seus chefes à produção. Só que ele não tinha o menor talento e sua cena com Marlon Brando resultou em um desastre. Coppola resolveu então colocar uma cena extra, em que o personagem, visivelmente nervoso, decora o texto que irá dizer para o seu poderoso padrinho. No DVD, Coppola fala que essa foi uma saída criativa e perfeita para um problema, que acabou "virando uma piada interna da produção."

E foi assim, driblando tantos problemas e limitações, que Coppola dirigiu esse retrato icônico da máfia que influencia até hoje os filmes com essa temática. Um sucesso imenso de bilheteria e o início de uma maravilhosa trilogia aclamada por todos. Difícil acreditar, mas por detalhes, tal trilogia que hoje todos amam, poderia nunca ter existido como tal.

Visto pela primeira vez em VHS nos anos 80 e depois revisto por incontáveis vezes em DVD e mídia digital.

sábado, 15 de outubro de 2016

GLÓRIA FEITA DE SANGUE (Paths of Glory, 1957)


UM CLÁSSICO ATEMPORAL DO CINEMA.

país produtor: Estados Unidos da América
direção: Stanley Kubrick
elenco: Kirk Douglas, Adolphe Menjou, George Macready, Ralph Meeker, Christiane Kubrick

sinopse: Em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, o general francês Mireau, ordena um ataque impossível e, diante do fracasso, instaura corte marcial para punir com a morte três soldados, acusados de covardia.

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Paths of Glory é um libelo anti-guerra e anti-militar poderosíssimo. De forma elegante, o roteiro e a direção de Kubrick nos leva ao espanto com a hipocrisia de relações marcadas pela hierarquia e subordinação. Os palcos: os palácios e as trincheiras da Primeira Grande Guerra, um conflito que expôs a insanidade dos governantes europeus e redefiniu o mapa mundial. 


Primeiro, somos apresentados aos palácios. Onde os generais Paul Mireau e George Broulard, por suas estrelas e promoções, decidem levar suas tropas a um ataque impossível com o objetivo de tomar um maciço chamado Colina Formigueiro. São diálogos onde o cinismo e a hipocrisia imperam.


Em seguida vemos as trincheiras, onde a morte se instalava, seja pela gripe espanhola, por gases tóxicos ou artilharia inimiga. Trincheiras essas que tornaram a guerra estática, com avanços mínimos de ambos os lados, durante meses e até anos. As opções defensivas suplantavam as de ataque. A antiquada noção dos comandantes de que para vencer uma batalha era preciso antes de tudo a coragem da tropa se esvaia a cada avanço refutado, a cada massacre. Entre os dois lados das trincheiras, a "terra de ninguém", onde o emaranhado de arames farpados e acidentes no terreno tornavam cada ataque ainda mais difícil.


Tal como ordenado, o ataque ocorre. Em cenas de guerra estupendas, um resignado Coronel Dax (Kirk Douglas) lidera seus soldados pela terra de ninguém, que pouco avançam. A segunda leva nem mesmo sai das trincheiras, sendo rechaçadas pela artilharia.

Diante da frustração do fracasso, Gen. Paul Mireau sugere, e Gen. Broulard concede, que três soldados, um de cada companhia, sejam levados a corte marcial. A acusação: covardia. Coronel Dax, agora indignado, pede para ser o advogado de defesa, na tentativa de impedir o fuzilamento. Temos aí o cerne da obra: um coronel em busca de justiça, contra a hipocrisia de dois generais.  


Considero esse o melhor filme de Stanley Kubrick. O apuro técnico é impressionante. A fotografia, uma das melhores que já vi. A parte sonora também é excepcional. Elenco formidável. Que defeito há nesse filme? Não encontrei.

O roteiro não fica atrás, é brilhante. Em menos de uma hora e meia, ótimos diálogos dão profundidade a diversos personagens, em um trabalho de concisão incrível. E o final... que cena surpreendente e bela. Lágrimas são inevitáveis. É o sopro de esperança que nos faz acreditar, ao fim, na humanidade.

Um filme como esse, que expõe o cinismo do discurso dos senhores da guerra, não pode nem nunca será esquecido. Eis aí, então, meus últimos adjetivos: Glória Feita de Sangue é um clássico atemporal do cinema.

Visto em VHS nos anos 90 e revisto por duas vezes em arquivo digital, em 2015 e 2016.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

CIDADE DE DEUS, 10 ANOS DEPOIS (Brasil, 2015)


UMA EXCELENTE PREMISSA DESPERDIÇADA.

país produtor: Brasil
direção: Cavi Borges, Luciano Vidigal

sinopse: Após 10 anos que o emblemático Cidade de Deus foi lançado, como estão as vidas dos seus jovens atores e atrizes?

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Cidade de Deus é o mais bem sucedido filme brasileiro da história com feitos que vão muito além dos quatro Oscars aos quais concorreu. É um clássico do cinema mundial que até hoje é lembrado, citado e discutido. Está na 27ª posição no Top Rated do iMDB, com 8,7 de média nas cotações dos usuários. Ganhou prêmios mundo afora, virou um ícone pop no Brasil.

Grande parte do sucesso do filme deveu-se ao cuidado de seus diretores, Fernando Meirelles e Kátia Lund, na escolha e ensaio do elenco. Com poucos rostos conhecidos, muitos sem nunca ter atuado na vida, os diretores optaram por oficinas e ensaios afim de preparar e definir os papéis, em um processo que levou meses.

Pobres e sem maiores perspectivas na vida, alguns desses futuros atores eram da própria Cidade de Deus, caso de Leandro Firmino (Zé Pequeno). Outros eram do Vidigal, onde há até hoje uma sólida companhia de atores, a Nós do Morro. Do núcleo dessa companhia em Nova Iguaçu vieram outros nomes para o filme. Agora, você imagina, o que não deve ter passado pela cabeça dessa turma, quando se viu trabalhando em um filme, "virando ator" e, mais ainda, diante do sucesso mundial, sendo assediado e reconhecido? Como cada um lidou com isso, como cada um aproveitou a oportunidade, temos aí o enredo desse documentário.

Apenas dois nomes do elenco sensacional de Cidade de Deus não eram, em 2002, desconhecidos. Matheus Nachtergaele (Sandro Cenoura) já era um ator com projeção nacional. Seu Jorge (Zé Galinha) tinha uma carreira musical bem delineada e debutava na tela grande. São os estranhos no ninho. Muito pouco para um público conservador e ávido por estrelas de novela. É incrível como Cidade de Deus quebrou paradigmas e se impôs com um elenco praticamente desconhecido e negro. Um feito para a história do cinema.

Há revelações incríveis nesse documentário. Ficamos sabendo por exemplo que o ator principal, Alexandre Rodrigues (Buscapé), tinha a proposta de levar o cachê de dez mil reais ou então receber uma porcentagem sobre a bilheteria. É bonita a forma como ele conta isso, entre risos arrependidos, pois ele escolheu os dez mil de que tanto necessitava, decerto.

Há outros momentos muito bons, como quando acompanhamos os percalços de Rubens Sabino (Neguinho), com um olhar vidrado, relembrando o dia que foi preso por furto. Inteligente, ele ainda filosofa sobre o sentido do próprio documentário, segundo ele, a serviço dos egos, inclusive o próprio. Rubens é dependente químico e em 2015 resolveu sair da Cracolândia e recomeçar a vida em Portugal, com a ajuda de um amigo. Mais uma ajuda, dentre tantas que recebeu de pessoas como o ex-baterista do Rappa, Marcelo Yuka, e do próprio diretor Fernando Meireles. Não sabemos se essa nova oportunidade de recomeçar foi bem aproveitada. Não há mais notícias sobre essa pobre alma atormentada.

Outro momento marcante é quando a produção armou o encontro entre Seu Jorge, hospedado no Marina Palace no Leblon, e Felipe Paulino, a criança que chora ao levar um tiro na mão. Felipe trabalhava então nesse hotel, como jovem aprendiz, um jeito mais bonito de falar estagiário. Com um certo constrangimento no ar, as câmeras testemunham o sucesso e o fracasso trocando algumas palavras e um abraço forçado. Felipe Paulino, por problemas familiares, desistiu da carreira artística.

Todos esses momentos estão nos dois primeiros terços do filme. É quando se acompanha o que a vida fez com esses jovens e muitos outros. Assim vão se passando os minutos, com o filme basicamente saciando a curiosidade do espectador. Apesar do claro interesse que desperta, já nota-se aqui a falta de uma discussão mais direta sobre os motivos do sucesso ou os erros que levam ao fracasso. 

O grande problema do filme está no seu terço final quando, abruptamente, passa a levantar os porquês dos fracassos, relacionando-os com as dificuldades de um negro ser chamado para papéis na TV ou no cinema. Uma discussão pertinente, mas que soa meramente panfletária e sem a devida base contextual. A edição infelizmente perdeu muito tempo de filme discutindo bobagens como valor de cachês. Maior ganho para a discussão seria dar para o espectador uma visão mais ampla sobre a questão racial no Brasil, que se reflete não só na TV e no cinema, mas em todo o mercado de trabalho. Um certo vitimismo também é perceptível, sem levar em conta que simplesmente nem todos aqueles jovens atores desenvolveram o talento suficientemente para se consolidar no audiovisual.

E afinal, por que a ausência de Fernando Meireles e Katia Lund entre os entrevistados? Se recusaram? Não foram nem contactados? Seja como for, eis aí um dos maiores erros dessa produção, repleta de boas intenções, mas sem o devido preparo de seus realizadores para dar conta de todas elas.

domingo, 10 de abril de 2016

IDA (Ida, 2013)


COM UM OLHAR INQUIETANTE SOBRE O ANTI-SEMITISMO, EIS AQUI UM FILME NECESSÁRIO E IMPORTANTE.

país produtor: Polônia // direção: Pawel Pawlikowski // elenco: Agata Kulesza, Agata Trzebuchowska

sinopse: Anna é uma órfã criada por freiras na Polônia em 1962 que, pouco antes de ser ordenada, descobre seu passado judeu. Ela então se une à sua única parente viva em uma viagem pelo país em busca de seu passado.

Metascore: 91 (from metacritic.com)

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Ida aborda o anti-semitismo por um ângulo inquietante. É de grande acerto situar a perseguição aos judeus poloneses como uma prática não só dos invasores nazistas entre 1938 e 1945, mas também de parte do povo cristão da Polônia e, por que não, de outros países ocupados.

Pois, de fato, a Alemanha nazista não inventou a perseguição e o massacre aos judeus. Desde muito antes esse povo vinha sendo perseguido pela Europa. Em Ida vemos que os pais e parentes da protagonista foram assassinados não por um característico soldado da SS, mas sim por pessoas comuns, católicas, que se aproveitaram da guerra para se ocupar das propriedades judaicas e prosperarem às custas dos sofrimentos alheios.


Além de contextualizar o Holocausto sob esse ângulo ainda pouco explorado, essa obra consegue dar o devido destaque à religião na histórica perseguição aos judeus. Não à toa, a protagonista Anna é uma noviça às vésperas de ser ordenada que, ajudada por sua tia Wanda, última parente viva, descobre sobre sua origem e nome judaico, Ida. Da química dessa relação e das revelações, nasce em Anna a dúvida sobre sua vocação.

Wanda e Anna são pessoas atormentadas pelo passado, uma entidade mais poderosa do que elas. De um lado, Wanda é infeliz pelas lembranças do sofrimento. Já Anna é infeliz pelo desconhecimento de sua origem, por não saber quem é.

Eis então o grande conflito do filme: a luta emocional de seus personagens contra fatos que levaram à destruição de vidas e de um próspero povo, pelo simples motivo de professarem uma fé diversa. Assim, entre o desafio de encarar o passado reconstruindo o presente ou simplesmente "se matar", o final do filme, mais do que surpreendente, é um desesperançoso epílogo de um povo perseguido e aniquilado na Polônia. De uma população de mais de um milhão, hoje nesse país há pouco mais de dez mil judeus.

Ida é um filme necessário e merecedor dos prêmios que vem conquistando por sua sensibilidade, sutileza e beleza. É muito mais do que sua bela fotografia. É um lamento em forma de arte, que versa de forma elegante sobre um assunto doloroso que não pode ser esquecido jamais.

Visto em 2014, em arquivo digital.

domingo, 3 de abril de 2016

CIDADE DOS SONHOS (Mulholland Drive, 2001)


DAVID LYNCH PROPÕE AO ESPECTADOR UM JOGO... E QUEM O JOGA TEM UMA EXPERIÊNCIA INESQUECÍVEL.

país produtor: Estados Unidos da América, França // direção e roteiro: David Lynch // elenco: Naomi Watts, Laura Harring, Justin Theroux

sinopse: Uma misteriosa morena com amnésia (Laura Harring) se esconde em um apartamento vazio até ser descoberta por uma jovem atriz (Naomi Watts) recém chegada a Los Angeles. Ela não sabe o seu nome, mas ao ver um cartaz de um filme estrelado por Rita Hayworth, se autonomeia Rita. Já Betty, às voltas com seus sonhos de se tornar uma atriz famosa, resolve ajudá-la, sem nem mesmo imaginar que essa jornada irá revelar fortes laços que as unem.

Metascore: 81 (from metacritic.com)

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Cidade dos Sonhos seria originalmente uma nova série televisiva de Lynch, autor em 1990 de um título que foi um divisor de águas na TV americana: Twin Peaks. Porém, a produtora abandonou o projeto e o cineasta, com o apoio do Canal Plus (França), realizou essa grande obra surrealista, que arrebatou elogios, colecionou prêmios e foi, inclusive, indicado ao Oscar de melhor diretor em 2002.

Não é um filme fácil. É preciso despreendimento do espectador para acompanhar a trama que, mesmo tendo um claro fio narrativo, por vezes investe em um clima de sonho, suspensão da realidade e flashbacks desconectados que pode irritar e desorientar. Por isso, vale aqui ressaltar a importância da grande atuação de Naomi Watts, que ajuda com sua beleza e entrega, a sustentar a atenção da plateia nessa difícil jornada que o seu personagem inicia.

A partir daqui, tentarei fazer uma análise sobre o que entendi do filme após a segunda vez que o apreciei. Na primeira, no cinema, entendi muito pouco, apesar de ter gostado muito do que vi. Aviso importante: o texto a seguir contém diversos spoilers.

No meu modo de ver Cidade dos Sonhos é um filme sobre a morte e a busca de duas mulheres, em uma espécie de limbo, pela verdade do que elas eram em vida e as circunstâncias que envolveram o seu trágico fim.

E quem são essas mulheres? Ou melhor, como o filme nos apresenta elas nas primeiras cenas? É importante analisar isso.

Primeiro somos apresentados a Rita, envolvida em um acidente inesperado em Mulholland Drive (estrada famosa de Los Angeles) e que, desorientada, se esconde em um apartamento. Lá ela adormece e sonha cenas desconexas, onde não está presente. Vemos telefones tocando, mafiosos atendendo e falando coisas do tipo "ela continua desaparecida". Há também uma memorável cena de um homem desmaiando ao ver uma criatura horripilante. A essa altura o espectador desavisado deve estar se perguntando "que diabos é isso"... Pois é, isso é David Lynch.

Em seguida surge em cena Betty, personagem de Watts, que se mostra linda, feminina, talentosa e sorridente ao chegar em Los Angeles. Seu desejo: ser uma atriz reconhecida, brilhar em Hollywood.

O contraponto entre essas duas personagens se estabelece quando elas se encontram no apartamento cedido pela tia de Betty, onde Rita se escondeu. Rita está desmemoriada, frágil. Já Betty, repleta de atitude e coragem, resolve ajuda-la, motivada por um sentimento de proteção que, mais tarde, entenderemos ser de remorso, oriundo de quando elas eram íntimas, em vida. No entanto, nesse início de filme, Betty e Rita nada sabem sobre isso. Estão em processo de autoconhecimento, vivendo hora um sonho dentro de um sonho (Rita), hora na irrealidade, na pura fantasia (Betty).



Esses dois estados, fantasia e sonho, não são muito claros para o espectador. Em diversos momentos, não sabemos onde termina um e começa o outro. Não sabemos nem mesmo se há algo de "real" no que os personagens estão vivendo em tela. Acho isso encantador nesse filme, por não querer e nem se atrever a nos dar respostas prontas.

O filme avança. Há uma linha narrativa que centra na busca de ambas sobre quem é Rita. Há também a busca de Betty pelo reconhecimento como atriz, que faz um teste de elenco bem sucedido. Há ainda os sonhos - ou memórias? - de Rita, em que conhecemos melhor outros personagens do filme e, em especial, Adam Kesher, um diretor pressionado pelos produtores a escalar uma atriz em seu próximo filme. Esse personagem é peça chave na conexão, em vida, entre Betty e Rita.

A busca de ambas pelo passado de Rita culmina com a ida ao Club Silêncio. É o momento mais grandioso do filme. As palavras proferidas no palco do clube “Não há banda. É só uma gravação. É uma ilusão” são direcionadas não só para as personagens, mas para nós espectadores. Ainda no clube, dentro de sua bolsa, Betty encontra um cubo azul. O rosto das duas diante desse cubo denota não só surpresa, mas medo do que pode estar por revelar-se. Elas levam o cubo ao apartamento, o cubo é aberto com uma chave que simboliza a morte e ambas, surpreendentemente, somem do quarto. A tia de Betty, que vimos no início do filme carregando as malas para uma viagem, abre a porta do quarto. Ela nada encontra, apesar de ter sentido a presença de algo estranho. Será que ela viajou mesmo ou sempre esteve presente naquele apartamento?

A partir daí o filme dá uma guinada e um nó na cabeça do espectador. Somos apresentados à Betty real, com dentes sujos, trejeitos masculinos, sem maquiagem, morando em uma casa escura, suja e feia. Descobrimos ainda algo surpreendente: ela é a mulher morta que apareceu em uma dramática cena anterior, antes da ida ao Club Silêncio.

E Rita, quem é Rita realmente? Dominadora, manipuladora e maldosa, ela é amante ocasional de Betty e está noiva de Adam, o diretor de cinema.

Betty sente que está sendo deixada para trás, sente que é, no fundo, uma fracassada. Nasce então nela o desejo de matar Rita. O plano é executado com a ajuda de um bandido pé de chinelo. Mas Betty, atormentada pelo remorso e pelos sonhos e lembranças com Rita, se suicida.

Ou seja, temos aqui uma história aparentemente comum envolvendo um triângulo amoroso, traição, vingança e tragédia, só que contada de uma forma subvertida, simbólica e muito inteligente. Com ecos de filmes noir, críticas à leviandade artística da sub-hollywood e cenas de lesbianismo sensacionais, Cidade dos Sonhos é a obra-prima inesperada de David Lynch, esse cineasta tão ímpar, tão outsider.

Cineasta esse com uma filmografia repleta de obras onde o surrealismo se faz presente, sempre de uma forma respeitosa à tradição iniciada por Buñuel, mas também com um caráter muito particular, onde a subversão da narrativa tradicional ao mesmo tempo que afasta um certo tipo de público, o aproxima de outro, mais acostumado a filmes artísticos e sensitivos, que não se preocupam com o entretenimento em primeiro lugar.

Seja como for, eu me divirto muito toda vez que vejo esse filme, pois ele é como um livro com diversas páginas em branco, onde cada espectador é convidado a preenchê-las. E toda vez que revejo Cidade dos Sonhos as páginas são preenchidas com algo novo.

Lembro-me que a repercussão à época do lançamento de Cidade dos Sonhos foi muito grande, com muitos querendo compreender essa história trágica. Não à toa, é possível encontrar na internet muitas outras interpretações, desde aqueles tempos. Felizmente, não há um caminho certo a seguir ao ver esse filme, por isso o meu conselho é que se você for assisti-lo, vá de mente aberta e depois chegue a suas próprias conclusões, que podem ser bem diferentes das minhas.

Visto em 2002 no Espaço Unibanco de Cinema. Revisto desde então por 3 vezes em DVD e, em 2014, no Netflix.


domingo, 20 de março de 2016

MELANCOLIA (Melancholia, 2011)

IRREGULAR E INQUIETANTE OBRA DA FASE DEPRESSIVA DE LARS VON TRIER.

país produtor: Dinamarca, Suécia, França e Alemanha // direção: Lars Von Trier // elenco: Kirsten Dunst, Kiefer Sutherland, Charlotte Gainsbourg

sinopse: Dividido em dois atos bastante distintos, Melancolia tem como personagens principais duas irmãs, também bastante distintas. No primeiro ato, uma delas (Justine), em plena festa de seu casamento, está lutando contra a depressão, enquanto a outra (Claire) tenta manter as aparências. Já no segundo, diante do iminente fim do mundo (um planeta chamado Melancolia irá se chocar contra a Terra), Justine parece conformada, sóbria e centrada; já Claire e seu marido não sabem como lidar com a situação.

Metascore: 80 (from metacritic.com)

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Todo fã do grande cineasta Lars Von Trier deve se lembrar do quiprocó que ele arrumou em Cannes ao fazer piada e provocação com um tema caro, o nazismo. Resultado: de queridinho na Riviera, Trier passou a persona non grata. Esse episódio me fez pensar muito na própria condição do cineasta e sua conhecida depressão.


Penso em Trier com compaixão, pois sei que as pessoas não tem paciência para com os enfermos da alma. O depressivo é uma pessoa só, incompreendida. E Trier foi, de fato, incompreendido em suas jocosas (e agressivas) observações. O resultado de tudo isso é mais uma vitória dessa terrível onda do politicamente correto e da geração mimimi. Trier, coitado, devia ter nascido nos anos 70 do século passado. Sua personalidade controversa seria mais bem aceita.

Quando vi Melancolia pela primeira vez nem mesmo sabia, mas esse filme faz parte de uma tal "trilogia da depressão" (deixo aqui um link que a explica muito bem: http://petcomufam.com.br/2014/02/lars-von-trier-e-a-trilogia-da-depressao.html). Pois bem, entrei no cinema ansioso em assistir o que meu falecido pai considerava um dos maiores filmes que ele havia visto. Por isso e pela assinatura desse diretor responsável por grandes obras como Ondas do Destino (1996) e Dogville (2003), esperava muito mais do que me foi entregue, infelizmente.

Pra começar, a festa de casamento que toma todo o primeiro ato me soou muito parecida com a brilhante encenação de Festa de Família (1997), dirigido por seu colega dinamarquês Thomas Vinterberg. Só que, diferente desse filme, Lars Von Trier contou aqui com um roteiro fraco, que insiste na bizarrice e em situações forçadas. O resultado é que isso me afastou do drama da depressão de Justine.


Já o segundo ato de Melancolia, com mais poesia (principalmente visual), é o que salva esse filme do fracasso completo. Não que seja extraordinária, mas há mais humanidade nas situações e nos personagens. Até mesmo as atuações de Kirsten Dunst (agraciada com o Cannes) e de Charlotte Gainsbourg são melhores aqui. E vou te dizer, que esplêndidas são as últimas cenas... Por isso meu conselho é aguentar até o fim. O filme é em muitos momentos chato, mas o final é avassaladoramente belo e angustiante.


Recentemente resolvi rever Melancolia na esperança de ter uma nova percepção sobre o filme. Isso já aconteceu comigo, de entender e gostar de uma obra apenas em uma segunda oportunidade. Mas não foi dessa vez. O drama de Justine continuava sendo sabotado por uma série de situações desnecessárias. Taí um filme que teria o prazer de remontar. Metade das bobagens da festa de casamento iriam para a lixeira.

O que posso dizer para finalizar é que, sem dúvida, Melancolia é um filme instigante e que, na sua ambição nos faz refletir. E isso não pode ser desprezado, assim como a originalidade que é esse apocalipse concebido por Trier. Isso somado ao seu tom pessimista faz de Melancolia um espetáculo memorável para mim, mesmo que dele não goste muito.

Visto em 2011 no Cinépolis Lagoon, no Rio de Janeiro. Revisto em 2015, em arquivo digital.

domingo, 31 de janeiro de 2016

MINHA AMADA IMORTAL (Immortal Beloved, 1994)


IRRITANTE ROMANTIZAÇÃO DE FATOS HISTÓRICOS BOTA A PERDER UMA EXCELENTE PREMISSA.

país produtor: Estados Unidos da América, Reino Unido // direção: Bernard Rose // elenco: Gary Oldman, Jeroen Krabbé, Isabella Rossellini

sinopse: Ludwig Van Beethoven (Gary Oldman) morre e seu grande amigo e secretário particular decide cumprir o último desejo do compositor, que deixava em testamento tudo para uma "Amada Imortal", sem especificar o nome desta mulher. Assim, empreende uma jornada tentando encontrá-la.

Metascore: 81 (from metacritic.com)

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Minha Amada Imortal é um filme bastante ambicioso e com uma ótima ideia inicial. Pois se utiliza de uma estrutura de roteiro parecida com a de um clássico do cinema, Cidadão Kane, para traçar em flashbacks um painel da vida de Beethoven, se atendo principalmente a seu período mais criativo, a partir da composição de sua terceira sinfonia "Heroica".

Vejo também aqui ecos de Amadeus, filme de Milos Forman e ganhador de vários Oscar. Mas isso não é um elogio, pois tanto Amadeus quanto Minha Amada Imortal pecam ao recriarem fatos, mudando a História (com h maiúsculo) à conveniência do roteiro.

É claro que a liberdade criativa é necessária na hora de transpor para a tela fatos e personagens históricos. Mas para tudo há um limite e talvez por isso a minha experiência com Minha Amada Imortal não tenha sido boa, já que tenho familiaridade com a vida e obra de Beethoven. Me senti, em diversos momentos do filme, incomodado.

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Incomodado pela forma como o filme tratou a notória surdez do compositor. É certo que Beethoven se tornou uma pessoa arredia e depressiva a medida que a surdez progredia, mas, diferente do que o filme deixa transparecer de forma confusa, ela não impediu que o compositor tivesse nesse período seus anos mais profícuos. É importante lembrar que Beethoven compôs obras de grande valor, visionárias, até seu último suspiro de vida. E não estou falando da Nona Sinfonia, composta 3 anos antes, mas especialmente de seus últimos quartetos de cordas e peças para piano.

A surdez não impediu que Beethoven continuasse compondo, pois escrever música é algo que independe da audição. Contudo, para Beethoven era especialmente doloroso se ver impedido de reger, tocar em público e lecionar. Assim, na tentativa de dramatizar ao extremo essa situação de vida, o filme erra a mão. Um exemplo é uma cena horrorosa em que Beethoven não consegue reger um concerto para piano e orquestra e é alvo de gargalhadas do público. Não há registro de que isso tenha acontecido dessa forma. Beethoven era uma figura pública respeitada, apesar de, devido a sua excentricidade e temperamento, nem sempre dar-se ao respeito. Esse é um dos muitos exemplos de uma irritante "romantização" dos fatos, sempre colocados de forma exagerada em detrimento de uma maior veracidade e leveza.

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Essas minhas críticas são escritas com pesar, pois Minha Amada Imortal é um filme que poderia ser melhor do que realmente é. Mas seu tom exageradamente romântico e sua história desnecessariamente novelesca tornaram-no um espetáculo difícil de engolir. O que se salva aqui sem poréns é a música desse grande gênio. Felizmente, ela foi bem usada. Diversos momentos do filme são engrandecidos graças a ela, como que demonstrando que maior do que todos os filmes sobre Beethoven, é a a obra que ele nos legou.

Visto em 2016 no Netflix.

domingo, 3 de janeiro de 2016

CARTAS DE IWO JIMA (Letters from Iwo Jima, 2006)


UM RETRATO SENSÍVEL DO LADO PERDEDOR DA GUERRA DO PACÍFICO.

país produtor: Estados Unidos da América // direção: Clint Eastwood // elenco: Ken Watanabe, Kazunari Ninomiya, Tsuyoshi Ihara, Ryo Kase, Shidou Nakamura

sinopse: A batalha pela conquista da ilha de Iwo Jima durante a Segunda Guerra Mundial pela perspectiva dos japoneses derrotados.

Metascore: 89 (from metacritic.com)

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Antes de mais nada, Kazunari Ninomiya, como o ex-padeiro que luta pela sobrevivência, está bem mais ou menos. Mas Cartas de Iwo Jima é tão bom, que não é uma atuação deficiente que será capaz de apagar as coisas belas desse filme, a obra-prima de Eastwood ao lado de Os Imperdoáveis.

A fotografia é soberba, não só pela escolha das cores, mas também pela iluminação dos cenários e dos corpos de soldados fadados a morrer, esquecidos em meio a megalomania imperialista de um país que, após as conquistas de inúmeras ilhas no pacífico e colônias no sudeste asiático, não puderam deter a impressionante reação dos Estados Unidos e sua máquina de guerra.

É um filme que fala de muitas coisas. Fala da derrota de um exército, a essa altura desmantelado, mal treinado, atrasado. Cartas de Iwo Jima é um raio-x límpido da derrota japonesa na segunda grande guerra.

Fala do fanatismo de um povo. Dos males do totalitarismo. De como a crença em um rei "divino" cegou uma nação próspera, levando à opressão, a supressão de liberdades, a milhares de mortes e traumas. As posteriores bombas atômicas foram a desculpa perfeita para que Hirohito, o rei macabramente "divino", declarasse a rendição incondicional, mesmo contra a opinião de generais incompetentes, que preferiam o massacre de seu próprio povo e mais destruição.


Por fim, fala de honra. Mas que honra? Explodir uma granada junto ao peito é mais honroso do que lutar até o fim? Triste distorção de valores...

Porém, mesmo falando de tantos aspectos ruins de uma nação derrotada em guerra, Cartas de Iwo Jima é extremamente respeitoso com os japoneses. Há humanidade nos personagens. O filme passa a acertada mensagem de que, naquela ilha, todos eram vítimas.

Como não poderia deixar de ser, o filme tem vários momentos pró Estados Unidos, o que eu não considero um problema. Há apenas uma cena em que soldados americanos cometem um crime de guerra. Em contrapartida, o exército japonês, conhecido por suas atrocidades, é quase poupado de cenas infames, que relembrariam os muitos crimes de guerra cometidos fanaticamente. No mais, é o poderio bélico americano que impera, em cenas de guerra muito boas.

Sensível, Cartas de Iwo Jima tem o poder de emocionar não só americanos, mas japoneses. Pois o Japão renascido do pós-guerra se converteu em uma nação de paz, ciente, assim como a Alemanha, de seus erros passados que, espero, não se repetirão jamais. Um filme inesquecível.

Visto em 2015 em arquivo digital.